É bom andar a pé
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É bom andar a pé

A cidade está um caos, quase parando, e não se fala em outra coisa em São Paulo a não ser “o que fazer para melhorar isso”. O assunto é amplo, merece ser bem discutido e envolve TODO MUNDO: poder público, cidadãos e empresários. Sim, meu caro, você que usa carro, bicicleta, caminhada, corrida, busão, metrô, trem, monotrilho, ou qualquer outro meio de transporte para se locomover em São Paulo, tem sua parcela de responsabilidade. Da minha parte, uso bastante o meio de transporte mais barato que existe: andar. As razões são simples. Uma delas é que gosto de caminhar. Outra é que não dirijo, então, é necessário.

Muita gente me diz que não dá para se locomover a pé pela cidade. Eu digo que dá, mas que não é necessariamente fácil. A gente se acostumou com algumas comodidades e, às vezes, é difícil abandoná-las. Requer um pouco de estratégia e abdicação. E, sim, há problemas em se levar uma vida a pé, assim como há problemas em se levar a vida de carro, bike ou busão. Mas isso não quer dizer que é inviável.

O que mais atrapalha o uso de um meio de transporte é a falta de praticidade. Por isso, o que vale pra mim não vale necessariamente para todo mundo. Tenho certeza de que há pessoas que não podem optar por andar a pé pela cidade, seja pela distância, problemas físicos ou mesmo pelo tipo de trabalho. Porém, não podemos nos esconder atrás do argumento de que “pra mim não dá” sem antes fazer uma reflexão. Não dá ou você não quer abrir mão de certo conforto? Não dá ou você tem preguiça de andar? Porque ninguém precisa de carro para ir à padaria do bairro, mesmo que ela fique a quatro quarteirões de casa (o que é bem perto…).

É fato que as pessoas têm livre escolha para decidir a forma como querem se locomover pela cidade. E sempre vai ter quem prefira o carro, seja para fazer trajetos longos ou curtos. A democracia é ótima, mas não obriga ninguém a fazer determinada escolha e temos que aprender a conviver com isso. Por isso, quando se fala em mobilidade, fala-se tanto em consciência. Não é só uma questão de encontrar o que é mais prático pra mim. É uma combinação do que é mais prático pra mim com o que é melhor pra cidade e o que é possível fazer. É preciso pensar no coletivo. Talvez por isso o desafio seja tão grande. Não é fácil fazer as pessoas pensarem nas outras pessoas quando isso mexe com o seu dia a dia, o seu conforto e comodismo.

As ciclofaixas que estão sendo implantadas em São Paulo são um bom exemplo e uma ótima oportunidade para refletirmos sobre isso. Há problemas na forma como todo o processo tem sido feito, há trechos com asfalto ruim, buracos e até árvores. Não podemos negar isso, mas também não podemos usar como argumento para dizer que “é ruim”. Pior ainda, usar o discurso do “ninguém usa, então não tem que ter”. É preciso entender que se trata de projetos de longo prazo e que não podem andar sozinhos. Demandam outros investimentos (a questão é se esses investimentos, de fato, virão).

Além disso, precisamos separar muito bem o que é usar um meio de transporte, como bike ou caminhada, para o lazer e para o trabalho. São coisas bem diferentes. Da bicicleta eu não posso falar muito porque não uso. Mas, da caminhada, posso. Como já disse, eu não dirijo. Então, caminhar é natural e uma necessidade. Durante quatro anos, quando ainda morava no interior, eu trabalhava a poucos minutos de casa. Acordava, ia trabalhar, almoçava em casa, voltava do trabalho à noite, ia pra academia, tudo a pé. Com certeza isso me ajudou a formar o hábito da caminhada, que carrego até hoje.

Já em São Paulo, as coisas são um pouco diferentes. Ou eram. Durante dois anos, tive uma rotina que me obrigava a ir, diariamente, da Penha (Zona Leste) para Alphaville (bairro dos ‘chiques e famosos’ na grande São Paulo). Era muito demorado. Eu morava em frente ao metrô, o que facilitava. O trajeto era: metrô Penha – Sé – Armênia – ônibus intermunicipal que atravessa a marginal Tietê. Na volta, a mesma coisa. Em condições “anormais” (sem muvuca no metrô e sem trânsito), seria bem tranquilo de ir. Mas as condições dificilmente eram “anormais” e, infelizmente, o “normal” é muita muvuca no metrô e trânsito completamente congestionado na marginal. Ou seja, um inferno.

Aqui vale um parênteses para quem nunca pegou muvuca no metrô ou marginal congestionada. Muvuca no metrô é você não conseguir entrar no trem. Se conseguir, é ficar completamente amassada, sem condições de se mexer e de respirar. Juro, eu já passei mal. É uma das poucas situações nessa vida que faz com que eu me transforme em uma pessoa desumana. Saio distribuindo cotovelada, piso no pé, empurro todo mundo. Sempre uso uma frase do Nelson Rodrigues para explicar o que acontece: “a multidão não só é desumana, como desumaniza”. É difícil explicar. O trânsito na marginal é simplesmente uma situação de impotência. Não há para onde correr. Dá vontade de nadar no rio poluído ou, como diz um amigo, deixar o carro lá e sair andando. Já cheguei a levar três horas do trabalho para casa nessa época. Só conseguia pensar: “dava para ter chegado em Ribeirão Preto”.

Quando saí de Alphaville para trabalhar onde estou até hoje, no Tatuapé, ainda morava na Penha. Só que aí eu tinha que andar apenas uma estação de metrô e depois caminhar uns 15 minutos, andando devagar. Nem preciso explicar que a vida melhorou muito. Hoje, moro no mesmo bairro do trabalho e tenho algumas opções: ir de carro (no caso, carona com o marido); ir de ônibus (é preciso andar uns cinco minutos até o ponto e o trajeto do coletivo não leva mais do que 10 minutos); ir a pé (são cerca de 3 quilômetros de distância, sem subidas, em um trajeto que levo cerca de meia hora para fazer). Não posso reclamar, né? Opção é o que não falta. E uso as três, dependendo do dia. Mas gosto muito de ir a pé. Faço a revista do bairro, então isso me ajuda a olhar, descobrir novas pautas, ter novas ideias. Mas, claro, há dias em que não estou a fim, ou estou cansada.

O fato é que andar é muito natural pra mim. Não vejo problemas em ir ao shopping, ao cabeleireiro, ao médico, à padaria, ao mercadinho, à farmácia, tudo a pé. O que me espanta é, justamente, as pessoas se espantarem com o fato de eu achar normal caminhar. “Você é louca” é o que mais ouço. Mais louco é quem me diz, reproduzindo a música. Sinto um alívio enorme quando vejo aqueles carros todos parados e eu continuo andando calmamente. Durante a Copa do Mundo, saía do trabalho uma hora antes dos jogos e o bairro estava fervendo, todo mundo enlouquecido, buzinando e passando no farol vermelho. Eu caminhava tranquilamente e chegava em casa a tempo de ver os ‘pernas de pau’ fazerem bobagem. A verdade é que não sofro por usar a caminhada como meio de transporte. Mas não nego que há problemas.

Um deles é o peso. Caminhar é sempre melhor quanto menos coisas você estiver carregando. Andar cheia de sacolas e penduricalhos atrapalha muito. Eu tenho o péssimo hábito de carregar a casa dentro da bolsa. Posso dizer que isso é um ponto negativo, mas não um impeditivo. Basta criar uma nova organização e começar a andar com menos penduricalhos. Acabo deixando uma porção de coisas no trabalho (blusa de frio, livros, revistas, compras, sapatos) para não ter que carregá-las quando encaro a caminhada. Quem gosta de levar marmita para o trabalho também pode ter um problema (marmita exige um manejo todo especial para não virar ou vazar, né?). Mas, hoje em dia, existem bolsas térmicas e marmitas super práticas, que facilitam a vida. São caras, é verdade, mas o investimento pode valer a pena.

O sapato é muito importante quando se fala em caminhada. Eu, por exemplo, não gosto de andar de tênis e isso é um problema porque ainda não inventaram calçado melhor pra quem anda muito. Uma estratégia comum usada por quem caminha bastante é calçar o tênis na hora de sair de casa e levar outro sapato na bolsa. Já fiz muito isso e funciona. Mas tem horas que cansa e você já quer sair de casa usando o sapato com o qual vai ficar o dia inteiro. Sem contar que há momentos em que o tênis não combina com a roupa que você colocou. Então, é imprescindível ter sapatos confortáveis para caminhar e que tenham a ver com o seu dia a dia, o seu estilo, o seu guarda-roupa. O mesmo raciocínio vale para as roupas: quanto mais confortável, melhor.

O clima também interfere muito na vida de quem opta pela caminhada. Afinal, ainda não inventaram um ar-condicionado portátil. Eu tenho verdadeiro horror ao calor. No auge do verão, a minha disposição para ir trabalhar andando é zero. E não dá para ser diferente. Também não consegui pensar em uma alternativa. Sonho com um carro com ar-condicionado, mesmo que isso acabe com o trânsito da cidade. Em compensação no inverno (ou quando faz frio no inverno), dá vontade de andar o dia todo…

Acho uma delícia andar com um ventinho gelado no rosto, mas os meus cabelos… Muita gente acha uma bobagem se importar com isso, mas não podemos esquecer que estamos falando de usar a caminhada como meio de transporte. Isso significa que ela te leva para o trabalho, reuniões, encontros importantes. A vaidade não pode ser exagerada e nem desculpa, mas todo mundo gosta de estar bem arrumado. No meu caso, que tenho cabelos cacheados, o vento é um problema. Saio de casa com os cabelos molhados e, quando chego ao destino, estão uó! Não encontrei a solução para esse problema (secador não vale porque não gosto), mas isso nunca me impediu de ir a algum lugar caminhando.

Para terminar, vou falar de um benefício que, a princípio, pode parecer banal, mas não é: conhecer melhor o bairro. Andar te aproxima do local. Andando você acaba prestando muito mais atenção ao redor. Só descobri que tem uma pequena loja voltada para o mundo Geek no Tatuapé (e também que ela já fechou!) porque passei por ela a pé, indo para o trabalho. Já havia passado de carro diversas vezes pelo lugar, mas nunca tinha reparado. De carro, mesmo se você não é o motorista, a atenção se volta para o trânsito, não para o que acontece nas calçadas. Já a pé, você instintivamente olha para o lado quando vê algo que chama sua atenção. Tem ainda a vantagem de poder fazer vários caminhos diferentes. O Tatuapé, por exemplo, é cheio de ruas estreitas, ainda com casas antigas e pequenas vilas. Um prato cheio para se descobrir coisas novas. Eu morro de vergonha de sacar a câmera ou o celular da bolsa para fazer uma foto, mas tenho tentado. E tem sido legal andar com o olhar voltado para o que é diferente. Sempre há coisas (pautas?) novas a se descobrir. Fiz até um tumblr para colocar essas fotos (andarape.tumblr.com). Também posto no Instagram da revista em que trabalho (@revista_do_tatuape) e no meu pessoal (@maisainfante09). Não são fotos de fotógrafo, mas sim de uma curiosa que gosta de andar a pé mesmo quando o vento bagunça o cabelo!

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