De carro por Gonçalves
Andar a pé Blog

De carro por Gonçalves

Ao sair de São Paulo e ver pessoas andando a pé em uma cidade onde não há congestionamento e nem falta de vagas, achamos estranho. Afinal, se não há esses problemas, por que não andar de carro?

 Maisa Infante

Tirei uma mísera, mas necessária, semana de férias e passei quatro dias enfurnada no meio do mato, na cidade mais reconfortante que eu conheço: Gonçalves, sul de Minas Gerais. Fica pertíssimo de São Paulo (2h30 de viagem), tem uma paisagem incrível, é super pequena e acolhedora e meu celular não funciona por lá… Bem, a escolha do lugar para passar esses quatro dias foi justamente para desligar e descansar. Por isso, nem pensei em andar a pé pela cidade para fazer um post. Com certeza teria sido interessante. Pauta para a próxima viagem. Ou desculpa para voltar lá em breve.

No dia da volta para São Paulo, eu ia descer do carro para abrir a porteira da pousada quando o filho mais velho do caseiro, que descia a ladeira a pé, com uniforme da escola e mochila nas costas, se dispôs a abri-la. Oferecemos carona até a cidade e ele aceitou. Foram poucos minutos de conversa, mas o suficiente para ligar o (meu) pisca alerta. O rapaz, que deve ter uns 17 anos (eu estava tão de férias, que não fiz a lição básica do jornalismo, de perguntar a idade), vai todos os dias a pé para o colégio. Ele sobe uma ladeira enorme na volta, já que mora no topo do morro, a 1.400 metros de altitude (para se ter uma ideia, a altitude média em são Paulo é de 760 metros) e anda um trecho por estrada de terra. Sai de casa bem antes do horário da aula, dá uma volta pela cidade, pensa um pouco na vida e vai para o colégio. Eu, como típica paulistana, perguntei: “você anda isso tudo todos os dias?”.

Esse caminho ao fundo é uma parte da ladeira que Daniel sobe todos os dias. Bem lá no fundo é possível ver o centro de Gonçalves.
Esse caminho ao fundo é uma parte da ladeira que Daniel sobe todos os dias. Bem lá no fundo é possível ver o centro de Gonçalves.

De volta a São Paulo, fiquei pensando: por que eu, que tenho um blog para falar sobre andar a pé, estranhei o rapaz que vai para o colégio caminhando? Só por que ele anda alguns metros pela estrada de terra? Ou por que ele mora no alto do morro? Não sei dizer. Na hora, aquilo me soou estranho. Mas, pensando melhor, não há nada demais em fazer o que Daniel faz. O trajeto da casa dele até a escola é curto, cerca de dois quilômetros. O trecho de terra tem menos de um quilômetro e é uma estrada boa. Só deve ser ruim comer poeira dos carros que passam em alta velocidade…

Gonçalves é um município com pouco mais de 4 mil habitantes, sendo que a grande maioria mora na zona rural. É natural que as pessoas precisem caminhar pelas estradas de terra para chegar em suas casas, nos bairros mais afastados do centro da cidade. E por ser uma região rural, as necessidades são outras e os hábitos também. No bairro de São Sebastião das Três Orelhas, havia uma placa na cerca com os seguintes dizeres: “favor não amarrar cavalos nesta cerca”. Sabe por que eu não fotografei? Porque estava de carro, e não a pé.

Praça central da cidade de Gonçalves
Praça central da cidade de Gonçalves

Nas estradas de terra que cortam os morros, é normal ver pessoas caminhando. Nitidamente não estão se exercitando, mas ganhando a vida, indo ou voltando do trabalho, da escola, do médico, do mercado, enfim… É uma rotina tão diferente e tão distante da que temos, que tudo parece ser exótico, estranho, incomum. Andar a pé em São Paulo, mais do que um prazer, virou uma necessidade. É algo que afeta diretamente a nossa qualidade de vida. Porque ninguém é feliz preso no congestionamento. Porém, ao sair de São Paulo e ver pessoas andando a pé em uma cidade onde não há congestionamento e nem falta de vagas, achamos estranho. Afinal, se não há esses problemas, por que não andar de carro? Eu mesma, com exceção das trilhas de cachoeira, só andei de carro por Gonçalves. E olha que a paisagem por lá é mais do que convidativa. Não dá mesmo para nos entender.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *