A casa da fonte
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A casa da fonte

Caminhando em busca de curiosidades para uma matéria, passo em frente a uma casa com uma fonte no jardim da frente. É uma quarta-feira de manhã, a rua está cheia de gente e penso: “não posso NÃO fotografar isso”. Gente, quem tem uma casa com muro baixo e uma fonte na frente hoje em dia? Saco o celular e clico. Saio andando para continuar minha caminhada da curiosidade. Uma mulher vem em minha direção com a sacola da padaria da esquina nos braços, para na minha frente e pergunta: “você tirou foto da minha casa?”. Gelo. Logo imagino aquelas cenas em que a pessoa pede para o fotógrafo apagar as imagens, ou então alguém pega a câmera e a joga contra a parede. Mas nada disso aconteceu.

A moça ficou um pouco receosa, afinal me viu tirando uma foto da casa dela. Eu, confesso, inventei uma história de que estava reformando a minha casa e fotografei para usar como inspiração. Aí puxei papo. Ela vive na casa desde que nasceu, há mais de 40 anos. A casa tem 50 anos, foi comprada pelo seu pai e sempre teve aquela fonte. Ela gosta e faz questão de mantê-la preservada. Dizemos tchau e fico aliviada com a foto e com meus pensamentos.

Andar por aí e encontrar casas como essa, que me remetem imediatamente a outra época, me faz pensar que estamos morando mal. Claro que existem casas incríveis e desejáveis por aí (experimentem assistir ao programa Casa Brasileira, do canal GNT…), mas, no geral, escolhemos trocar uma casa com fonte na frente, jardim bem cuidado e vista para a rua, por apartamentos cada vez menores, com móveis planejados que só vamos conseguir usar por lá mesmo. Abrimos mão de espaço, lazer e verde por segurança e praticidade.

Casa com fonte no Tatuapé

Essa é uma discussão longa, diria quase interminável. Há teorias que são a favor dessas mudanças e outras que são contra. Eu acho que o mundo ficou mais feio. Não consigo achar nenhum prédio mais bonito do que essa casa com fonte na frente, por mais que eu ache fonte um pouco brega. A casa me traz aconchego. Consigo imaginar famílias construindo suas histórias ali dentro. Pessoas de verdade. Os prédios, por mais incríveis que sejam, me trazem impessoalidade. O apartamento é meu, mas o resto não. Tudo tem que ser discutido com um monte de gente. Se acho a fonte brega, não posso quebrá-la; se quero ter uma fonte, não posso construí-la.

Talvez seja apenas saudosismo de algo que eu não vivi, mas que imagino ter sido incrível. Aquela casa e aquela história não são minhas. Mas me levam para um tempo que eu gostaria de ter conhecido, mesmo que fosse para criticar em um blog depois.

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