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Mooca com sotaque japonês

Mooca com sotaque japonês

Tomie Ohtake começou sua vida artística em uma pequena casa, na Mooca, e precisava sair da sala e ir para o jardim para visualizar as telas maiores

Por Maisa Infante

Tomie com os filhos, Ruy e Ricardo (no colo), em frente à casa da Rua da Paz, na Mooca.

É com a desenvoltura de um antigo morador que o designer Ricardo Ohtake, 69, desenha um mapa para situar a rua do bairro da Mooca em que cresceu. Rua da Paz, número 96. A casa já não existe mais, a rua agora é Rua do Lirismo, mas as referências de Ricardo são bem vivas e precisas. Rua da Mooca, Rua Luis Gama, Rua Vandenkolk, Rua da Figueira. O filho da artista plástica Tomie Ohtake e irmão do arquiteto Ruy Ohtake é o porta-voz da família para relembrar os anos em que o clã de japoneses viveu entre os italianos da Mooca. “É engraçado porque não tinha um japonês por perto. Mas tinha muito italiano. Eu me lembro muito bem: Pugliesi, Cappo, Benedetti, Parisi, Barsote. Tinha até uns espanhóis e um russo”, relembra.

O presidente do Instituto Tomie Ohtake, um dos redutos da arte contemporânea de São Paulo, parece ter a Mooca na palma da mão. “Ah, o bairro todo não! Mas esse pedaço eu conheço muito bem. Na Rua da Mooca, depois da linha do trem, tem a Imprensa Oficial. Tem também aquela doceria incrível, a Di Cunto”. Essa memória é resultado das mais de três décadas em que a família Ohtake viveu no bairro dos italianos. Ricardo passou a infância e adolescência na região, onde permaneceu até terminar a faculdade de arquitetura na USP (Universidade de São Paulo), em 1970. “Depois mudei para o Brooklin, onde estou até hoje”.

A história desses japoneses com o bairro que recebeu os imigrantes italianos começou em 1936, quando Tomie veio ao Brasil para visitar um irmão que tinha uma empresa no País e já morava na Mooca. “Meu tio voltou para o Japão para participar da guerra do Pacífico, que era contra a China, e a minha mãe não pôde embarcar porque não ia participar de nada urgente no Japão. Ela foi ficando, conheceu meu pai, casaram-se e o Ruy e eu nascemos”.

Desenho feito por Ricardo Ohtake a partir da lembrança de onde ficava a casa da família, na Mooca

Na pequena Rua da Paz, a família tinha uma vida simples e típica daquela época. Até enchentes enfrentaram. “A casa era pequena e a rua inundava, pois fica a um quarteirão do rio Tamanduateí”, conta. “Como saí de lá adulto, fiz amigos, mas os vejo pouco porque cada um foi para um lugar. E nenhum deles foi para a arte. Meu irmão e eu estudamos no Instituto Salesiano — Dom Bosco. Minha mãe dizia que como íamos ficar no Brasil, teríamos de levar uma vida de brasileiro. E já que aqui a maioria era católica, seus filhos iriam estudar em um colégio católico. Depois, fomos estudar em um colégio público no parque Dom Pedro. Chamava-se Colégio Estadual Presidente Roosevelt e, depois que o Ruy saiu, mudou de nome para Colégio Estadual de São Paulo. Era um dos melhores colégios públicos da cidade. Naquela época, escola pública tinha exame de admissão. O Ruy entrou em primeiro lugar e eu em quinto”.

O ateliê

A casa da Mooca, com jardim em frente, foi onde Tomie começou sua vida artística. Mais precisamente, foi na sala de jantar que ela começou a pintar. “Ela ficava em um cantinho e precisava montar e desmontar todo o material de pintura diariamente. Era uma bruta trabalheira”, relembra o filho. Os primeiro quadros eram pequenos mas, com o tempo, a artista sentiu necessidade de fazer obras de maiores dimensões. Aí, a casa da família precisou ser rearranjada para que Tomie pudesse trabalhar. E lá se foi a sala de visitas, transformada em ateliê. “Foi assim que ela teve um ateliê um pouco maior, que não media mais do que 3X3. Mas lá ela podia deixar montados os tripés com as telas e não tinha necessidade de limpar as palhetas todos os dias. Só tinha um problema. Como a sala era muito pequena, quando queria ver um quadro grande de longe ela precisava sair para o jardim e olhar pela janela”, conta Ricardo.

A movimentação artística na casa da família Ohtake começou quando Tomie tinha 39 anos, no início dos anos 1950, e já estava com os filhos criados. O Ruy, inclusive, se formou arquiteto na mesma época em que sua mãe começou a pintar. “A vida de pintora dela e a vida de arquiteto dele foram simultâneas, um não influenciava muito o outro. Comigo foi diferente. Recebi influência direta dos dois”, diz o filho designer.

Com essa vida artística pulsante, a casa da Mooca recebeu muitas visitas ilustres como Ciccillo Matarazzo (mecenas e criador do Museu de Arte Moderna de São Paulo, do TBC — Teatro Brasileiro de Comédia e da Companhia Cinematográfica Vera Cruz), o crítico de arte Mário Pedrosa e o médico Osório César (psiquiatra que foi marido da Tarsila do Amaral, médico do Hospital Psiquiátrico do Juqueri e responsável por incentivar os internos a pintarem e desenharem). A arte, enfim, era pulsante na casa da Mooca.

Maisa Infante é jornalista, editora da Revista da Mooca e Revista do Tatuapé. Essa matéria foi escrita em 2012 e publicada na Revista da Mooca

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