Vida nova sem carro
Andar a pé Blog

Vida nova sem carro

A surpresa de sair na rua e não encontrar seu carro onde você o deixou é sempre desagradável. Depois do roubo vem a dor-de-cabeça com Boletim de Ocorrência e seguro. Isso se você tiver algum seguro. Se não, é hora de sentar e contabilizar o prejuízo.

O jornalista Diego Iwata Lima, 34, teve todas essas dores de cabeça quando, em setembro de 2014, roubaram seu carro bem em frente ao prédio em que morava. Mas, em vez de comprar outro, ele decidiu experimentar viver sem um automóvel à disposição na garagem. Está assim até hoje.

Diego mora na Casa Verde e trabalha no Centro de São Paulo. Pelas indicações do Google, São cerca de 4 km de distância com uma Marginal Tietê no meio do caminho, via pensada apenas para carros e praticamente intransponível para pedestres. Então, ele usa a caminhada e o transporte público para se deslocar diariamente. Ainda assim, anda muito mais do que quando tinha carro e acredita que viver em São Paulo sem carro, ou usando menos o automóvel, é perfeitamente possível.

Diego com as cachorras Beca e Zoey, companheiras de muitas caminhadas - foto de Carolina Pereira
Diego com as cachorras Beca e Zooey, companheiras de muitas caminhadas – foto de Carolina Pereira

“Quando meu carro foi roubado eu tinha acabado de me separar, estava com a grana curta, precisando me mudar e resolvi colocar em prática um plano que sempre tive: viver sem carro. Um amigo sempre me dizia: ‘você não precisa de carro em São Paulo’. Eu ouvia e ficava pensando como é que eu ia fazer supermercado! Ainda assim, decidi experimentar. Se eu sentisse muita falta do carro, compraria outro.

Aluguei um apartamento na Casa Verde e comecei a ver como eu me movimentava a pé. Estou até hoje sem carro e não me arrependo. Posso dizer que conheço melhor a Casa Verde, onde moro há 8 meses, do que a Vila Olímpia, onde morei por 4 anos. Por quê? Lá eu só andava de carro.

A pé você percebe que não precisa passar no Pão de Açúcar quando tem que comprar alguma coisa. Você pode entrar naquela vendinha, aonde você nunca ia porque não tinha vaga para estacionar, e descobre que pode resolver muitas das suas compras por lá.

Meu próximo plano é colocar a bicicleta na história. Acho que o transporte público me limita, porque fico dependendo de horários e lotação. E não tem liberdade maior do que depender apenas de você para chegar onde se quer. Eu trabalho bem próximo ao metrô Santa Cecília, mas às vezes desço no metrô República e vou a pé só para andar um pouco mais. Às vezes eu ando 20 minutos até algum lugar por querer.

Um amigo me mostrou uma frase muito emblemática: “você não está no trânsito, você é o trânsito”. Ele tirou foto de uma pichação na rua e mandou pra mim. E é verdade. Quantas horas da minha vida eu perdi no trânsito?

É importante as pessoas perceberem que não é obrigatório ter carro em São Paulo. E que não ter carro não é, sempre, as mil maravilhas. Mas se optar por isso e fizer escolhas inteligentes, você consegue. Eu faço questão de fazer as escolhas mais inteligentes possíveis para não ter carro. Aprendi, por exemplo, a fazer compras em pequenas quantidades, perto de casa ou do trabalho. Sempre tento preparar uma mochila que me permita não carregar muito peso. Também deixo duas ou três camisetas no trabalho, principalmente quando está muito quente. Você aprende a ser mais prático quando anda a pé.

Claro que há momentos em que um carro faz falta. Por exemplo, quando preciso comprar ração para as cachorras. Tenho duas cachorras grandes. Então, ou compro um saco pequeno, que dá para carregar, mas é mais caro, ou pego um táxi na hora de voltar com os pacotes grandes.

O calor também complica. Eu costumo levar outra camiseta e trocar no trabalho. E nem ligo se estiver amassada. A gente acaba criando novos hábitos. Claro que tenho a vantagem de o andar a pé combinar com o meu estilo de vida. Gosto de ser informal, de usar tênis e tenho o benefício de pegar o transporte público no contra fluxo. Acredito que se eu tivesse que usar roupa social e gravata seria mais complicado.

Na hora daquela chuva torrencial, ou quando aparece um compromisso de última hora e, em vez de 15 minutos, você leva 40 para chegar, fico pensando que se estivesse de carro seria melhor. Se bem que, na chuva torrencial, o carro também não anda… Ainda assim, a balança ainda está no positivo pra mim.

Escolher andar a pé não quer dizer que eu desgosto de carro. Pelo contrário. A minha namorada tem carro e a gente sai com ele diversas vezes, principalmente à noite. O que eu não gosto é de trânsito. Honestamente, meu sonho é viver em uma cidade em que não seja preciso usar carro para nada. Eu acho possível, mas não sei se é politicamente desejável. A gente sabe que as montadoras têm um lobby muito grande e São Paulo tem uma malha metroviária muito ruim. Alguém pode dizer: Ah, mas é mais prático ter carro! Para algumas coisas sim, para outras não. Eu acredito em uma cidade com menos carros. Essa frase de “você é o trânsito” me abriu o olho. Porque continuar reclamando dessa merda se eu faço parte dela?

Dependendo do lugar, o risco de andar a pé é maior? É. Mas isso vai me impedir e vou ser obrigado a comprar um carro? Não. Eu vou dar um jeito. Posso voltar e pegar um ônibus antes, por exemplo. Claro que é preciso ter cuidado, ficar atento, pensar por onde você vai andar. Se você não conhece bem o lugar, faça uma pesquisa na internet. As pessoas são colaborativas, falam sobre os lugares. Agora, não se pode deixar de viver por causa do risco.

A cidade está ficando impraticável. É mais fácil chegar a um futuro apocalíptico do que em uma sociedade equilibrada e mais equânime. Estamos tão bitolados em um jeito de ser e de viver que vivemos como se não houvesse alternativa. E há.

Para andar a pé é preciso querer e pensar inteligente. Não adianta andar a pé e pensar com a cabeça de quem anda de carro. Claro que tem prós e contras. Mas a balança está no positivo e eu dou um jeito de esse positivo ficar ainda maior. Por isso dá certo pra mim”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *