Por que, tantas vezes, eu acho São Paulo monótona?
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Por que, tantas vezes, eu acho São Paulo monótona?

 
Sobradinhos no Tatuapé: nada de monotonia (Foto:Maisa Infante)

Outro dia, saí para uma caminhada pelo bairro após o almoço. Andei por cerca de 40 minutos por lugares pelos quais eu nunca havia passado. E, olha, posso dizer que foi muito empolgante! Passei por ruas bem residenciais, onde as casas térreas e assobradadas são predominantes na paisagem. Havia janelas abertas, cortinas esvoaçantes, cachorro dormindo na garagem, gato em cima do carro, painéis de azulejo enfeitando a parede, vasos na janela, cadeiras na varanda, caquinho de cerâmica, isso sem contar as cores, uma diferente da outra… E não estou romantizando as cenas para torná-las mais bucólicas. Tudo isso eu consegui observar em uma simples caminhada após o almoço.

Voltei para a empresa e fiquei pensando no porque aquele passeio havia me deixado tão empolgada. Comecei a me lembrar de outras caminhadas que já fiz pela cidade para tentar entender melhor essa sensação.

Lembrei-me de um sábado em que precisei caminhar do Metrô Barra Funda até a região do estádio Allianz Parque. Meu destino era um prédio que fica bem atrás do estádio e saí de casa com tempo suficiente para caminhar pelo trecho com calma, crente de que iria encontrar várias coisas interessantes para ver e fotografar. Decepção total! Entrei na Avenida Francisco Matarazzo e segui em frente. A maior parte dos estabelecimentos comerciais estava fechada. Passar em frente à casa de shows Villa Country em um sábado de manhã é deprimente. Além daquela fachada fake horrorosa, não há vida na frente de um lugar que teve “balada” no dia anterior. Só desolação!

Depois do Viaduto Antártica, a Avenida Francisco Matarazzo vira uma sequência de prédios comerciais. E, olha, os jardins na frente — mesmo nos mais novos, que não possuem grade — não trazem nada de bom para os pedestres. É tudo muito monótono e sem graça!

Foi depois de ler o que o arquiteto e urbanista Jan Gehl diz sobre a escala humana no livro Cidades para pessoas que entendi melhor essas sensações diferentes que tive (e tenho) ao caminhar por esses lugares. Enquanto as ruas do passeio após o almoço possuem uma arquitetura e uma vida que está ao alcance dos olhos, a Avenida Francisco Matarazzo, por exemplo, não tem nada que interesse ao pedestre. Tudo é grandioso e apenas visível de dentro do automóvel, onde se está a uma velocidade de reles observador e não de interação. “Um passeio numa arquitetura feita para 60 km/h é uma experiência sensorial empobrecedora: desinteressante e cansativa”, diz Gehl. “Em grandes distâncias, recolhemos grande quantidade de informações, mas das distâncias curtas recebemos impressões sensoriais muito intensas e emocionalmente significativas. O que é comum aos sentidos que operam curtas distâncias — olfato e tato e também a capacidade de reconhecer sinais de temperatura — é que eles estão mais proximamente ligados às nossas emoções”, completa.

Os arranha-céus são sedutores. Olhamos para eles e pensamos em modernidade e desenvolvimento. Mas a vida se desenrola, primordialmente, nas ruas. E ninguém anda olhando para cima. “Uma comunicação calorosa, pessoal e intensa ocorre a distâncias bem curtas”, diz Gehl. Segundo ele, a conexão entre o plano das ruas e os edifícios altos efetivamente se perde depois do 5º andar.

Por isso aquela caminhada na hora do almoço foi tão boa. Havia muita informação e muita emoção no meu caminho. E isso desperta mais vontade ainda de caminhar e pode ser um incentivador para as pessoas usarem mais a cidade. Por isso as questões de escala humana são tão importantes. A cidade não é apenas para ser admirada, mas para ser usada.

A questão que fica é como transformar os prédios, que são uma necessidade e já fazem parte da nossa paisagem, em um elemento urbano que faça parte desse cenário cheio de emoção. Como?

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