O bairro
Andar a pé Blog

O bairro

 

Quando vivemos em uma cidade que não é aquela na qual passamos a infância e a adolescência, as relações afetivas com o lugar precisam ser construídas. Afinal, não há aquela ligação com a rua onde se brincava com os amigos, a casa dos parentes, a escola, os passeios, o primeiro beijo etc. E nem sempre é fácil criar laços depois de adulto. Parece que ficamos menos abertos às experiências.
Costumo dizer que não tenho ligação com nenhum bairro de São Paulo. Minha simpatia ou não simpatia por algum lugar segue critérios absolutamente aleatórios: acho agradável, bonito, arborizado, simpático, bem localizado etc. E aí, caminhar por suas ruas é um bom jeito de encontrar essa relação mais emocional.
Quando me mudei para o Tatuapé, precisei buscar essa afetividade. E caminhar ajudou bastante nesse processo (pesquisar sobre a história e trabalhar na revista do bairro também contribuíram muito). Mas andar por aquelas ruas não foi um projeto pensado para criar essas relações. Na verdade, foi andando que percebi o quanto caminhar fez com que eu me sentisse parte daquele lugar, mesmo estando lá há pouco tempo.
Fiz uma pequena lista com algumas reflexões sobre a minha relação com o bairro a partir dessas caminhadas:

1. As casas
Caminhar praticamente te obriga a prestar mais atenção ao redor. A velocidade é baixa e a proximidade com a paisagem é grande. Só isso já faz com que se fique mais atento ao que está em volta: arquitetura, vegetação, mobiliário urbano, comércio, ruas, sinalização etc. E cada coisa tem a sua importância.
Prestar atenção nas casas, por exemplo, me trouxe um pouco da tão procurada afetividade. Os sobrados, os painéis de azulejo, os pequenos ladrilhos como revestimento, as vilas que ainda existem naquela região me remetem a outros tempos. E isso me traz muita afetividade. Gosto de pensar que o lugar onde vivo tem história; gosto de olhar aquelas casas e pensar em como era a vida ali em outra época. Acho bonito ter essa história ainda viva nas ruas, embora não se saiba por quanto tempo (há muitas demolições acontecendo).

2. O comércio
Caminhar quase que diariamente fez de mim uma pessoa mais informada sobre o que abre, fecha ou muda de lugar, principalmente no que se refere ao pequeno comércio. E isso me ajuda a usar melhor o bairro em que vivo. Porque saber onde ficam os estabelecimentos comerciais, ver um local novo que foi inaugurado ou descobrir que uma loja fechou tem influência no cotidiano de quem vive naquele lugar. E é andando a pé que conseguimos prestar um pouco mais de atenção nessas coisas. Afinal, dentro do carro toda a atenção deve estar no trânsito!

3. As ruas
Para um bairro ser agradável aos pedestres é preciso a conjugação de uma série de fatores (segurança, arborização, calçadas boas, comércio ativo, ligação com transporte público etc). E é bem difícil encontrar um lugar que conjugue todas as qualidades necessárias, a começar pelas calçadas que, no geral, são péssimas e mal conservadas. Mas a verdade é que isso não impede as pessoas de andar, embora dificulte bastante. Seja por necessidade, praticidade ou prazer, as pessoas continuam andando por aí. Caminhar sempre pela mesma região me fez conhecer os melhores e os piores caminhos para os pedestres, as ruas que oferecem maior sensação de segurança, as mais arborizadas (que são fundamentais para uma cidade caminhável), os lugares com calçadas boas e ruins, as ruas mais interessantes e as mais monótonas. No dia a dia, posso escolher os melhores caminhos para me deslocar.

4. A escala humana
Arquitetos e urbanistas do mundo todo estão cada vez mais debruçados sobre o estudo das cidades. Às vezes, o que eles dizem parece tão óbvio e, ao mesmo tempo, tão distante. Foi andando e vivendo esse dia a dia comum de um bairro que pude perceber o quanto muitas dessas questões fazem sentido. E uma delas é a escala humana, da qual Jan Gehl tanto fala. Um dia, passeando depois do almoço pelas redondezas do escritório, fiquei eufórica com tantas coisas que vi: casas, muros, portões, janelas, praças, comércio etc. Era tudo novo e estava tudo tão perto de mim! Foi aí que percebi o quanto ter uma cidade ao alcance dos olhos é importante. Quando fala em escala humana, Gehl está falando em uma cidade que pode ser vista e vivida pelas pessoas que não estão no carro. Isso significa ter uma paisagem interessante na altura dos olhos. Ou seja, não precisar se afastar para ler uma placa, observar um monumento ou ver o número de um prédio. Afinal, vivemos nas ruas e, na maior parte do tempo, fora dos carros.

5. Me sentir mais parte do bairro
Ser forasteiro é estar sempre procurando um jeito de se encontrar. O meu jeito foi conhecer, com minhas próprias pernas, o lugar que escolhi para viver. Gosto de poder falar com propriedade sobre uma determinada rua, pela qual passo sempre. Também gosto de descobrir uma nova paisagem que, muitas vezes, nem os moradores mais antigos prestaram atenção. Certamente, isso só é possível porque estou caminhando, caminhando, caminhando…

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