O Beco do Pinto
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O Beco do Pinto

 

Beco do Pinto - Centro de São Paulo (Foto: Maisa Infante)

Beco do Pinto — Centro de São Paulo (Foto: Maisa Infante)

Tenho certa paixão por vilas, becos e vielas. Sempre que me deparo com uma dessas pequenas ruas tenho vontade de caminhar por ela. Fico imaginando o que pode estar escondido em um lugar desses e sempre acho que vou encontrar algo interessante.

Andando pelo centro de São Paulo descobri o Beco do Pinto, uma ligação cheia de escadas entre a Rua Roberto Simonsen e a Dr. Bittencourt Rodrigues, nas imediações do Pateo do Collegio.

No século 19, essa viela era a passagem entre a então Rua do Carmo (hoje Roberto Simonsen) e o Rio Tamanduateí, que ainda era sinuoso e ficava bem pertinho do centro da cidade. Recebia o trânsito de pessoas e animais e foi aberto e fechado algumas vezes ao longo da história.

No livro A Capital da Solidão, Roberto Pompeu de Toledo fala um pouco sobre esse beco:

“O Beco do Colégio, que mais tarde será chamado de Beco do Pinto, do nome de um morador, o Brigadeiro Joaquim José Pinto de Morais Leme, percorria a encosta da colina, descendo da Rua do Carmo ao Tamanduateí. Lembre-se que o Tamanduateí ficava mais perto da área central da cidade do que viria a ficar, depois da retificação do seu curso, em 1848. Seu leito coincidia mais ou menos com o que viria a se constituir a rua 25 de Março. Podia-se descer pelo beco do Colégio e, uma vez embaixo, ir acompanhando, à beira-rio, a trilha das Sete Voltas até o Porto Geral”.

Hoje, o beco forma um conjunto com o Solar da Marquesa e a Casa Número Um, e faz parte do Museu da Cidade de São Paulo — uma rede de casas históricas espalhadas por diversas regiões da cidade.

 

O Beco do Pinto fica entre a Casa Número Um e o Solar da Marquesa (Foto: Maisa Infante)

O Beco do Pinto fica entre a Casa Número Um e o Solar da Marquesa (Foto: Maisa Infante)

O Solar da Marquesa é um dos imóveis mais famosos daquele pedaço. Foi residência da Marquesa de Santos entre 1834 e 1867. Certamente, a fama da Marquesa, sua relação amorosa e erótica com D. Pedro e os escândalos causados por esse relacionamento ajudaram a tornar o imóvel um ponto de interesse. Mas o que se vê hoje tem bem pouco da época em que a casa recebia grandes festas e encontros da aristocracia.

Depois da Marquesa, a casa abrigou o Palácio Episcopal e passou por algumas mudanças. É desse momento, provavelmente, a inclusão de características neoclássicas na fachada principal. Em 1909, quem ocupou o imóvel foi a The São Paulo Gaz Company (hoje Comgas) que ficou por lá até 1967. Foi a época que mais resultou em alterações na casa.

 

Fachada do Solar da Marquesa com características neoclássicas (Foto: Museu da Cidade)

Fachada do Solar da Marquesa com características neoclássicas (Foto: Museu da Cidade)

Quando começou o processo de restauração, na década de 1990, viu-se que não seria possível reconstituir qualquer estágio de construção dentre os vários pelos quais passou o Solar. A solução foi preservar e destacar elementos de suas várias etapas construtivas: a conservação dos amplos ambientes do andar térreo — resultantes das diversas demolições -, a preservação no pátio interno de vestígios remanescentes da calçada do século 18 e a demolição de intervenções da década de 1960.

 

O pátio interno do Solar da Marquesa ainda preserva algumas características da época da moradora ilustre (Foto: Maisa Infante)

O pátio interno do Solar da Marquesa ainda preserva algumas características da época da moradora ilustre (Foto: Maisa Infante)

No andar superior, é possível fazer um passeio pela casa. Pedaços descascados de parede mostram as diversas técnicas construtivas empregadas no local, como a taipa de pilão e o pau a pique. Algumas partes também exibem pinturas decorativas feitas nas paredes. Mas, a meu ver, falta informação. Não há nada, ao lado desses pontos, explicando para o visitante qual técnica é aquela ou de que época é a pintura. Seria infinitamente mais interessante cruzar aqueles salões imensos e vazios tendo a história daquela casa sendo contada. E, por que não, a história de sua moradora mais famosa: a Marquesa de Santos?

 

Pinturas nas paredes do solar (Foto: Maisa Infante)

Pinturas nas paredes do solar (Foto: Maisa Infante)

 

Salões do solar: notem a parede descascada acima da porta. Infelizmente, não há nada indicando qual técnica construtiva é essa (Foto: Maisa Infante)

Salões do solar: notem a parede descascada acima da porta. Infelizmente, não há nada indicando qual técnica construtiva é essa (Foto: Maisa Infante)

 

Um dos grandes salões do Solar da Marquesa (Foto: Maisa Infante)

Um dos grandes salões do Solar da Marquesa (Foto: Maisa Infante)

Do outro lado do Beco do Pinto fica a Casa Número Um, construída por Benedito Antonio da Silva no século 19. Antes, o lugar era ocupado por uma casa de taipa de pilão que, ao que tudo indica, teve inúmeros usos: de escola a hotel e órgãos ligados à polícia (colocar o link do texto no site da prefeitura). Hoje, o imóvel abriga a Casa da Imagem, um espaço para preservar a memória fotográfica da cidade. A fachada parece ter inspiração suíça e, lá dentro, as paredes guardam pinturas decorativas. Boa parte delas foi restaurada e está à vista do público. A casa sofre do mesmo problema do Solar da Marquesa: falta de informação. Não há nada que conte a história daquele imóvel ou daqueles murais. No dia da visita não havia nem mesmo um prospecto na recepção falando sobre a casa, apenas a programação do Sesc e das instituições culturais da prefeitura.

 

Fachada da Casa Número Um, na Rua Roberto Simonsen (Foto: Maisa Infante)

Fachada da Casa Número Um, na Rua Roberto Simonsen (Foto: Maisa Infante)

 

Pinturas nas paredes da Casa Número Um (Foto: Maisa Infante)

Pinturas nas paredes da Casa Número Um (Foto: Maisa Infante)

 

Pátio nos fundos da Casa Número Um (Foto: Maisa Infante)

Pátio nos fundos da Casa Número Um (Foto: Maisa Infante)

Olhando para o Beco do Pinto pelo quintal da Casa Número Um e por uma janela do Solar da Marquesa fiquei pensado em como como seria interessante e incrível se houvesse um burburinho de gente ali, com cafés que levassem movimento para aquele beco — um lugar de poucos carros, ótimo pra andar, super fácil de ir de metrô e cheio de história pra contar! #ficaadica

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