Delicadeza, realidade e reflexões de uma vida a pé
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Delicadeza, realidade e reflexões de uma vida a pé

 
A jornalista Ana Holanda, que ama andar a pé

Foi a necessidade de se exercitar — e deixar de pagar a anuidade da academia à toa — que fez com que a jornalista Ana Holanda incluísse caminhadas mais regulares no seu cotidiano. A ideia não era vestir uma roupa de ginástica e sair para fazer exercício, mas sim fazer isso nos trajetos do dia a dia. Foi quando ela se propôs um desafio: voltar a pé do trabalho, o que pressupõe cruzar os seis quilômetros entre a Avenida Juscelino Kubitschek e a região em que mora, perto da Avenida Paulista, com direito a uma subida no final. Mesmo acostumada a fazer as pequenas coisas do dia a dia a pé — como ir ao mercado, à padaria, ao médico, buscar os filhos na escola -, pensar em usar as próprias pernas como um meio de transporte foi, de fato, um desafio. E, também, uma escolha. “Quando eu comentava que estava voltando do trabalho a pé as pessoas me perguntavam por que eu estava fazendo isso comigo, me olhando como se eu fosse maluca. Eu dizia: é uma opção”.

O estranhamento não vem apenas dos amigos e conhecidos. Vem, também, da própria rua, que em alguns momentos vê o pedestre como um ser de outra dimensão. Em alguns trechos do Itaim, onde há muitas clínicas médicas e poucos pedestres, Ana costuma dividir o espaço da calçada com os manobristas, que ficam sentados esperando a hora de estacionar os carros. “Às vezes eles me olham com um ar de estranhamento como quem diz ‘o que esta pessoa está fazendo aqui?’ O sentimento é ‘você não tem autorização, por que você está andando?”.

Agora pensa: as pessoas usam, diariamente, um transporte público ruim, onde ficam horas em condições desumanas, e não concebem a ideia de andar uma hora a pé. “Às vezes eu me assusto ao pensar que muita gente enfrenta um vagão de metrô completamente entupido para percorrer apenas uma estação, em um trajeto que tomaria 15 minutos de caminhada. O que as leva a fazer isso? Acho que é o automatismo. Não existe um incentivo para que elas reflitam sobre suas escolhas. E isso fica evidente quando alguém entra na estação Paraíso do metrô para ir até a Brigadeiro, um trecho no qual se gasta apenas 10 minutos andando”.

Trajetos de até 3 quilômetros são perfeitamente possíveis de serem feitos a pé em cerca de 30 minutos, um tempo tranquilo de caminhada para uma pessoa saudável. Mas a qualidade de uma caminhada não é determinada apenas pela distância, ritmo e resistência física. A cidade faz parte desse processo e, nem sempre, é muito gentil com o pedestre. “A minha maior descoberta e o meu maior susto foi perceber como as ruas não foram feitas para as pessoas estarem nelas. É tão estranho quando você se dá conta disso. É uma não autorização para você estar ali”, diz Ana. “Não há padrão de calçadas, algumas têm só mato, outras são cheias de buraco ou têm níveis diferentes. E, também, há muito desrespeito. A faixa de pedestres está lá só para enfeitar a rua. Se não tiver um semáforo que delimita o tempo de cada um, você só vai conseguir atravessar se der uma de louca e sair correndo quando não vier nenhum carro, porque ninguém vai parar”, completa.

Tem ainda algumas questões de ordem prática que entram na pauta de decisões que o pedestre precisa tomar: que sapato usar? Qual bolsa levar? “Tive que mudar alguns hábitos. Um deles é que comecei a usar mochila em vez de bolsa. Dentro dela eu sempre coloco um tênis, porque aprendi que para trechos grandes e para a caminhada como meio de transporte ser confortável, teu pé não pode doer. Eu posso trabalhar com o que a ocasião estiver pedindo, mas tenho que levar um tênis na mochila para a hora em que for caminhar. Já cheguei a levar até uma bermuda. Saí do trabalho rezando pra não encontrar ninguém no caminho! Mas se você escolhe caminhar, essa é uma adaptação necessária. E, na verdade, está cheio de gente fazendo isso na cidade, mesmo que seja pra andar de metrô ou de ônibus”.

Choque de realidade

Andar pressupõe estar na rua, ter contato direto com outras pessoas, sem intermediários. É um jeito de olhar a relidade ao vivo e a cores, sem filtros. E isso traz muitas surpresas agradáveis — como descobrir uma nova loja, um lugar diferente, uma praça, observar a arquitetura da cidade -, mas também algumas cenas sem muita beleza, de uma realidade que fica quase sempre longe dos nossos olhos quando estamos de carro, de metrô ou de ônibus. “Uma imagem que me marcou muito foi ver um pai dormindo com a filha, às quatro horas da tarde, em um canteiro. É tão duro e ninguém se dá conta. É uma realidade que as pessoas optam por não ver quando sobem o vidro do carro, mesmo que elas não percebam que estão fazendo isso. Uma vez na rua, você é obrigado a encarar a realidade, não tem vidro para subir. É um corpo a corpo. Isso, talvez, seja um pouco amedrontador pra muita gente”.

Tempo da delicadeza

Mas tem, também, o lado mais poético da cidade. Há cerca de dois anos, Ana decidiu que começaria a buscar os filhos na escola a pé. É uma caminhada de cinco quarteirões que se torna, diariamente, um momento de descobertas. Os gêmeos Clara e Lucas, de sete anos, mostram para a mãe um outro olhar sobre o espaço urbano. “Eles têm uma percepção da rua muito diferente. Eles percebem as folhas das árvores caindo, quando está florescendo, em que lugar o sol está se pondo. É uma percepção de que a natureza está presente na cidade, que existe um tempo que está acontecendo em paralelo à nossa loucura. Acho isso encantador. Outro dia, eles encontraram um passarinho caído no chão, levaram para casa e cuidaram dele. Eu acho isso tão importante pra vida da gente, porque estamos tão anestesiados que não nos damos conta dessas delicadezas”.

A caminhada com os filhos depois da escola não serve apenas para não ter que tirar o carro da garagem e ser uma pessoa a menos parada em fila dupla na porta da escola. É, principalmente, uma forma de incutir nas crianças, desde cedo, uma relação mais gentil com a cidade, sem tantos medos ou amarras com um dos espaços mais democráticos que existe: a rua. “Por ter sido criada em um bairro de vida a pé, acho que cresci com uma relação muito mais generosa com a rua. Não é um território que me dá medo. E é por isso que eu faço tanta questão de fazer o que puder com os meus filhos a pé. Quero que eles cresçam sem medo, sabendo que caminhar também é uma possibilidade”, diz. “A gente ganha muita coisa quando anda a pé. Até aquilo que consideramos ruim, agressivo, nos ajuda a sair dessa anestesia da vida. Na rua você tem que encarar, olhar o que está acontecendo e essas coisas te levam a refletir mais. E isso é tão importante hoje em dia”.

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