Blog

Por que não pensar grande para um veículo pequeno?

Uma reflexão sobre as possibilidades do jornalismo hiperlocal

Bairro do Tatuapé, em São Paulo (Foto: Maisa Infante)

Entrei na faculdade de jornalismo em 1999 e saí em 2002. Na época, discutia-se a bolha da Internet e site começava a ser uma oportunidade para os jornalistas, mas o “jornalão” ainda era o foco nas salas da Cásper Líbero. Era fácil sair da faculdade com a ideia de que sucesso era estar na Folha, Estadão, Editora Abril ou Globo. Ao menos pra mim, essa era a sensação.

Quatorze anos depois da minha formatura, o mercado é bem diferente. Não sei como a universidade tem trabalhado essas questões, mas o jornalismo que eu estudei ficou ultrapassado, principalmente se pensarmos na mídia impressa, a que mais tem sofrido com a atual crise do modelo de negócios. E não quero que isso tenha um tom de reclamação. A mudança é inevitável e não acho que o momento seja de julgar se é bom ou ruim, mas sim de pensar o que fazer diante desse quadro.

Meu primeiro trabalho em uma redação foi em um jornal diário de Franca, cidade no interior de São Paulo. De lá, fui para uma revista de bairro na Grande São Paulo, em Alphaville, que fechou bem antes da crise se instalar. Depois, vim para onde estou até hoje, a Revista do Tatuapé.

Por mais que todos esses trabalhos tenham sido escolhas, eu nunca havia parado para pensar no mercado que os veículos menores ocupam. Simplesmente trabalhava e, muitas vezes, me senti mal achando que estava acomodada, que poderia ter tentado algo de mais projeção. Não foram poucas as vezes que alguém me perguntou quando me veria no Jornal Nacional…

De tanto ler sobre a profissão, sobre as mudanças que ela vem sofrendo e sobre o mercado da comunicação, comecei a refletir mais sobre a mídia local, mais especificamente a de bairro, que chamo de hiperlocal. Foi quando me dei conta de que na faculdade nunca se falou sobre esse assunto. O veículo de bairro não era sequer mencionado, nunca apareceu como uma oportunidade de trabalho ou mesmo objeto de estudo. Mas ele está aí. Segundo a AJORB (Associação dos jornais e revistas de bairro de São Paulo), há 70 veículos desse tipo na capital, o que não é pouco.

Assim como todo o mercado de comunicação, a mídia hiperlocal sofre para se adaptar à nova realidade. Ela sempre se sustentou com a venda de anúncios e distribuição gratuita e, por muito tempo, foi um caminho eficiente para um negócio local chegar aos potenciais compradores. Mas hoje temos o Google e sua força matadora, além das redes sociais. E aí, o que fazer? Bem, parece que ninguém sabe. Obviamente, o modelo de negócios precisa ser repensado, porque a fórmula “vender anúncio para sobreviver” não funciona mais.

A mudança no mercado da comunicação é drástica e, ao que parece, grandes empresas e conglomerados deixarão de existir. Futuros profissionais não terão mais uma Editora Abril como meta de trabalho. O Mapa do Jornalismo Independente, feito pela Agência Pública, mostra que o nicho é a tendência. Há veículos que falam de feminismo, sustentabilidade, música, videogame, periferia, negócios, novos negócios etc. E o bairro, será que também não é um nicho? Eu acho que sim. E um nicho que está no mercado há tempos, mas vem sendo desprezado e mal explorado, muitas vezes pelos próprios jornalistas, designers e fotógrafos, que não enxergam esses veículos como um local para se praticar o bom jornalismo.

É curioso como olhar para o próprio quintal pode ser mais difícil do que olhar para os grandes acontecimentos mundiais. Discutimos a guerra na Síria e as eleições americanas, mas nem sabemos qual foi o deputado mais votado no nosso bairro e o que ele anda fazendo nas sessões da câmara de vereadores. E há, em um único bairro, muitas possibilidades de pauta. Por que não explorá-las de uma forma que vá além de fazer uma foto do buraco na rua e colocar no jornal? Por que não pensar grande mesmo que seja para um veículo pequeno?

Para quem gosta de investigar e pesquisar, o jornalismo hiperlocal é um mundo a ser desbravado. Hoje, muitas redações estão viciadas nas assessorias de imprensa e suas facilidades. Elas indicam a fonte, fazem o meio de campo e até já mandam os textos prontos. No bairro isso é um pouco mais difícil. Muitas das boas histórias não se acha pesquisando “no Google” e não há assessoria de imprensa para ajudar. É preciso deixar a preguiça de lado e gastar sola de sapato, saliva e telefone, ou seja, praticar o bom e velho jornalismo.

2 thoughts on “Por que não pensar grande para um veículo pequeno?”

  1. PARABÉNS PELO TEXTO. Sou Osman Matos, escritor, professor, publicitário e jornalista hiperlocal há doze anos com experiência e orgulho nessa atividade. Sou BAIANO DE ILHÉUS E MORO NA CIDADE DE JOÃO PESSOA- PB HÁ 25 ANOS. DESDE 2007 INICIEI O JORNAL HIPERLOCAL CHAMADO “O MORADOR COMUNIDADES” E É UM SUCESSO. VOU TRABALHANDO NOS BAIRROS AO REDOR, DISTRIBUINDO GRATUITAMENTE A EDIÇÃO DE OITO PáGINAS, com anunciantes da área que “bancam” a edição de 5.000 exemplares, 8 PÁGINAS, TAMANHO TABLÓIDE, (25MM X 35MM) COM MAPAS da área E CONTEÚDO REIVINDICATÓRIO DE DEMANDAS PARA A COMUNIDADE, MAS DE MANEIRA APARTIDÁRIA, IMPARCIAL, ILUMINANDO AO DEBATE DE OPINIÕES COM INDEPENDÊNCIA EDITORIAL PARA O INTERESSE DOS MORADORES DA ÁREA METROPOLITANA DE JOÃO PESSOA-PB, A SERVIÇO DA CIDADANIA, PORTANTO. SIGA O LINK E DÊ UMA OLHADINHA EM PDF https://issuu.com/osmanmatos/docs/jornal_o_morador_comunidades_ed._24

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *