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A relação entre jornalistas e seus leitores, ou consumidores de conteúdo, precisa melhorar

Nós, jornalistas, não somos muito bons em dar aquela atenção especial aos nossos leitores/consumidores. Erramos bastante no pós-venda do nosso trabalho

Uma das discussões que tem permeado o mundo dos jornalistas é a nossa relação (e também das empresas de comunicação) com os leitores. Estive recentemente no evento da ONA Brasil e, em quase todas as mesas de discussão, falou-se sobre a importância de se estreitar, valorizar e, sobretudo, produzir pensando nos leitores. Parece que há uma necessidade, inclusive de sobrevivência no mercado, de se olhar com mais atenção para essa relação. E é sobre isso que quero falar.

O ego e a vaidade dos jornalistas têm ramificações que atingem nosso principal público-alvo: leitores, ou consumidores de conteúdo, já que é melhor levar em conta as diversas formas como um conteúdo pode ser distribuído. Ninguém escreve para não ser lido, faz um vídeo para não ser visto, ou grava um podcast para não ser ouvido. Porém, nosso ego e vaidade faz com que a gente dê quase nada de importância para o que a nossa audiência diz. E isso pode ser um problema. Somos treinados, desde a faculdade, para sermos intelectuais. Sempre achamos que nossas ideias são geniais e que qualquer pessoa vai querer lê-las simplesmente porque são muito boas. Mas isso não acontece. Seduzir um leitor com um trabalho bem feito sobre um tema que talvez não interesse muito a ele é possível, claro. Mas é para poucos. Bem poucos. No geral, as pessoas leem aquilo que interessa para elas. E hoje em dia está cheio de gente produzindo conteúdo, o que aumenta a concorrência.

Na forma industrial de fazer jornalismo, o jornalista pensava uma pauta, executava, colocava no jornal, revista ou programa de TV e os leitores/espectadores liam/assistiam o que a gente achava que era importante. Era isso ou desligar a TV e não comprar o jornal. Se quisessem falar com os jornalistas, o máximo que os leitores podiam fazer era enviar uma carta, para a qual ninguém dava muita importância. Era uma relação bem unilateral. A gente publicava o que queria e não tinha feedback do impacto disso na vida das pessoas. Talvez, não porque elas não quisessem falar, mas porque a gente não queria ouvir. Daí veio a internet e, principalmente, as redes sociais, e mudou tudo, dando mais voz e poder aos consumidores de informação. As caixas de comentários do Facebook escancaram acertos, erros e ideias de pauta que podem nem ter passado pela nossa cabeça. E a gente, que sempre achou que estava certo, não sabe muito bem lidar com isso. Fingimos que não vemos, respondemos laconicamente – quando respondemos -, ou nos metemos em uma briga de comentários para defender nossa ideia. É hora de aprender a lidar melhor com isso, por mais difícil que seja.

O Leandro Beguoci deu uma aula bem legal na Academia Draft falando sobre Economia da Atenção. Afinal, o que podemos fazer para que as pessoas gastem o tempo delas com a gente e não com o nosso concorrente? Porque, hoje, jornalistas disputam o tempo das pessoas não apenas com jornalistas, mas com milhares de outras coisas, inclusive o Netflix, que colou o cineminha de domingo dentro da nossa casa sete dias por semana durante 24 horas. O conteúdo vem de todo lugar, inclusive das próprias marcas. E, talvez, nesse jogo, quem souber se relacionar melhor com seus consumidores saia ganhando.

Com o mercado de nicho se mostrando cada vez mais como tendência, o leitor tende a ter ainda mais importância. Porque você quer falar pra ele e, indo ainda mais longe, quer que ele pague pelo seu conteúdo. Então, é hora de baixar a guarda e aprender a lidar com isso. É difícil sair do pedestal e assumir uma posição mais vulnerável, de ouvir o que o outro tem a dizer sobre o seu trabalho. Jornalistas não foram talhados para isso. E o olhar dos leitores/consumidores quase sempre não é o mesmo que o nosso. Eles não são, necessariamente, sensíveis ao trabalho que a gente teve para fazer aquela reportagem, vídeo ou podcast. O que importa é o resultado final, ou seja, se há a informação que ele precisa, se isso está fácil de ser encontrado no texto, site, aplicativo etc. Pouco importa, pra ele, se você leu 500 livros antes de escrever. Importa o que você, de fato, escreveu.

Tenho refletido muito sobre o que seria um pós-venda em jornalismo. Aquela atenção que você dá para a caixa de comentários do Facebook, a plataforma mais usada para divulgar o nosso trabalho. Certamente há um monte de bobagens escritas lá — principalmente se o assunto for política ou futebol -, mas pode haver, também, pessoas interessadas em discutir seriamente o assunto em questão, dar uma opinião, fazer uma crítica ou um elogio. E muitas vezes a gente demora a responder ou nem responde, igualzinho o vendedor da loja que nos ignora quando queremos trocar uma roupa que não serviu. Penso que se uma pessoa “consumiu” nosso conteúdo e gastou um tempo na caixa de comentários é porque aquilo tem importância pra ela. Ou seja, conseguimos fazê-la gastar um tempo com o nosso trabalho. Então, nada mais justo do que a gente também dar uma atenção pra ela e fazer como os bons vendedores, que nos ajudam com a troca e ainda nos fazem sair da loja com uma comprinha a mais. Afinal, queremos que ela continue consumindo aquilo que fazemos. Pois é, estamos falando de uma relação comercial, de compra e venda, e, meu Deus, jornalistas não gostam de falar disso… Mas o fato é que não dialogar com esses consumidores vai contribuir para mantê-los afastados e fazê-los procurar as respostas que desejam em outro lugar. E a gente vai perder vendas!

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