A Mooca
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A Mooca

 Hoje, fiz uma caminhada curta, porém intensa, por um pedaço da Mooca. A Mooca é aquele bairro de São Paulo que os moradores amam e lutam por ele. Quem é de fora, certamente já ouviu falar e tem no seu imaginário a ideia de um lugar bucólico, cheio de casinhas antigas e idosos sentados na porta de casa.

O bairro é o primeiro da Zona Leste depois do centro da cidade. Foi parte importante da história industrial de São Paulo. Antarctica, Açúcar União, Cotonifício Crespi, Moinhos Gamba são exemplos de grandes empresas cuja história passou pelo bairro e, claro, deixou registros na memória. Com a saída das fábricas, o motor do local passou a ser o comércio e o setor de serviços, mas restaram muitos galpões da época industrial. Uma parte do patrimônio foi tombada e preservada, outra está no limbo, em compasso de espera. Moradores e defensores do patrimônio histórico querem que ele seja tomando e preservado, mas os grandes terrenos aguçam o olhar das construtoras com a possibilidade de construir novos empreendimentos, ainda mais em um bairro que fica tão próximo do centro da cidade.

Na rua Borges de Figueiredo, por exemplo, foi construído em um condomínio de prédios no terreno onde ficava o Açúcar União. No meio das construções modernas está uma chaminé da fábrica. Ela foi tombada e, por isso, preservada. É até estranho vê-la ali no meio, mas acho importante manter um registro físico da história. Imagine as pessoas que moram e trabalham ali passando diariamente por aquela chaminé. Pode ser que boa parte delas não se interesse pelo porquê de aquilo estar ali, mas certamente haverá quem vá atrás da história. E assim ela se mantém.

Chaminé da refinaria do Açúcar União foi preservada em meio a prédios novos construídos no terreno onde funcionou a fábrica. Foto: Maisa Infante

Minha caminhada foi, basicamente por duas ruas: a Borges de Figueiredo (onde fica a tradicional confeitaria Di Cunto) e o trecho final da Rua da Mooca, beirando o viaduto. Fui conhecer o local onde se pretende fazer o Distrito Mooca, ideia de um empresário para revitalizar a região, ocupando os imóveis que existem ali com restaurantes, bares, galerias de arte e grafite.

A ideia, inspirada em Wynwood, um bairro de Miami que foi revitalizado dessa forma, parece boa. Vejo com bons olhos ocupar aquela região com um comércio vivo, principalmente porque aquele trecho fica bem na ponta do viaduto que passa sobre a linha do trem e é um lugar ermo, aquele ponto morto do bairro, onde boa parte dos imóveis dá de frente com um paredão e, por isso, não geram interesse comercial. Levar vida para o lugar, fazendo algo com unidade, que transforme o bairro em um ponto de pessoas com interesses em comum pode ser altamente benéfico.

Por enquanto, há dois imóveis em obra — e que serão parte integrante do projeto do Distrito Mooca — e um estúdio de tatuagem (lindíssimo, por sinal) já em funcionamento. A Di Cunto, ao que parece, é uma incentivadora do projeto, até porque a revitalização daquela região pode ser benéfica para ela comercialmente.

Paint Black Tatoo, o primeiro empreendimento do Distrito Mooca. Foto: Rodrigo de Paula

Acompanhada por um mooquense que é entusiasta do bairro e do projeto, o publicitário Rogério Coutinho, andei por trechos das duas ruas guiada pelo céu azul do inverno que me diz o tempo todo: “avante”. Ele se mostra entusiasmado com a ideia, que pode ajudar a desenvolver o bairro sem construir, necessariamente, um monte de novos prédios. Afinal, progresso não pode ser feito apenas com novas torres, mas o bairro também não pode ficar estagnado com uma porção de imóveis fechados e parados.

Grafites na Rua da Mooca. Foto: Maisa Infante

Quem caminha por aquela região hoje, não vai perceber essa “revitalização”. Com exceção do grafite em um muro e do estúdio de tatuagem, tudo ainda está exatamente como sempre foi. Mas se a ideia der certo e for pra frente, daqui há algum tempo caminhar beirando a linha do trem será muito mais prazeroso.

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