A banca
Andar a pé Blog

A banca

Adoro uma banca de jornal. É um desses espaços urbanos que deveriam ser tombados para nunca desaparecer. É um ponto de encontro, um lugar de referência, um local onde qualquer um pode entrar e passar alguns minutos — ou horas.

Nesse momento em que se fala de uma cidade mais humana, pensada para as pessoas, vejo as bancas como um espaço fundamental. Para quem caminha, por exemplo, elas são um ótimo ponto de apoio, uma lojinha de conveniência. Por estarem em praças e calçadas, sempre de portas abertas, são facilmente acessíveis para quem está a pé. Um lugar para comprar uma água, pedir informação, descansar um pouco, comprar uma barrinha de cereais para repor as energias e, claro, olhar (e comprar) revistas.

Não sei bem qual será o futuro das bancas com as mudanças no mundo da comunicação. Aliás, basta uma olhada rápida em qualquer banca de revistas e fico imaginando como o mercado de comunicação pode estar tão ruim se há tantos títulos disponíveis. Tá, tudo bem, eu sei que o buraco é bem mais embaixo, mas não deixa de ser uma reflexão a se fazer…

Se por acaso forem extintas algum dia, as bancas farão uma falta enorme às cidades. Elas são o retrato da vida comum — que anda escondida no meio de tantos posts sobre viagens incríveis -, de quem sai de chinelo para comprar jornal no Domingo.

Não vemos surgir novas bancas na cidade. As que existem são aquelas que têm anos de história, o que faz delas um lugar conhecido no bairro, um ponto de referência. Gosto dessa segurança de ter um lugar com tradição, onde a gente sabe exatamente o que vai encontrar. E bancas me passam essa sensação.

Quando criança, me lembro de ir à banca aos Domingos, com meu pai, comprar gibi da Mônica. Era um passeio agradável, divertido. Já mais velha, costumava ir ao “jornaleiro” (um jeito carinhoso de me referir às bancas) buscar o jornal de domingo da cidade onde morava. Quando me mudei para São Paulo, na época da faculdade, amava as bancas de jornais da Avenida Paulista. Para quem veio do interior, era incrível poder comprar o jornal de domingo no sábado à noite.

Foto: Maisa Infante

Atração e fascinação é o que sinto pelas bancas. Há semanas em que entro diariamente em uma só para ver se tem novidades (inclusive quando eu sei que elas não existem). E não sou apenas um voyeur desses espaços. Sou, também, consumidora. Adoro comprar revistas. Gosto de ser surpreendida por uma capa linda que me seduz instantaneamente e me faz comprar por impulso. Também gosto de ser atraída por uma capa com um assunto que me interessa e me faz pegar a revista da prateleira sem pensar duas vezes. Na minha casa entra de Vida Simples a Globo Rural.

Acho que perdemos um pouco de poesia lendo somente no digital. Espero que o futuro mostre que, sim, há coisas que se pode ler digitalmente sem ter nenhuma perda. Já outras, ganham em significado se estiverem impressas em uma revista. Prezo muito mais o conteúdo do que a forma nas minhas leituras, o que deveria fazer de mim uma pessoa que não se importa com o suporte da informação, apenas com a própria informação. Bem, a vida não é tão simples assim. Ler uma revista impressa bem diagramada me dá muito mais prazer e deleite. Envolve um ritual de me sentar e focar a atenção naquilo, de deixar o olhar ir junto com a diagramação, que quando bem pensada deixa a leitura muito mais agradável.

Uma das minhas revistas prediletas é a Itaú Personnalité, um produto customizado para o Banco Itaú. É linda, bem produzida e com reportagens realmente interessantes. Uma colega de trabalho dos tempos de Alphaville que me apresentou essa revista. Como não sou cliente Itaú, não a recebo em casa. Mas, na época, descobri que ela era vendida em banca. Comprava sempre. Depois de um tempo, a publicação virou um produto digital, para ser lido em tablet por meio de aplicativo. Continua sendo uma revista linda, tem uma interatividade que não te atrapalha na leitura, ou seja, você usa se quiser. Mas, definitivamente, não é a mesma coisa. O digital me impele a uma leitura rápida, enquanto as revistas impressas me permitem ser mais lenta, ir mais devagar, exatamente como as bancas fazem com a cidade. Afinal, quem nunca parou para bater um papo com o jornaleiro e ainda emendou uma conversa com alguém que também estava lá, seja sobre o tempo, o futebol ou a política do País?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *