Pokémon GO e a cidade
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Pokémon GO e a cidade

 

Será que os “gamers” do mundo começaram a se relacionar com as cidades de um jeito diferente depois do Pokémon GO, o jogo de realidade virtual que faz os jogadores saírem por aí capturando pokémons? Tem gente andando quilômetros em busca de mais pokémons, mais pontos e mais desafios. Um Nova Iorquino de 28 anos zerou o jogo em 17 dias, período no qual perdeu 4,5 quilos graças às caminhadas. Nem a dieta mais rigorosa consegue esse feito! Será que o jogo da Nintendo está conseguindo mostrar para uma galera que andar alguns quilômetros por dia não é impossível?

Caminhar é uma realidade distante de muita gente, muitas vezes por falta de hábito. E, de repente, a busca por pontos e pokémons faz a pessoa mais preguiçosa do mundo andar pelo próprio bairro e pela cidade em busca de desafio, diversão e prazer. Até depressivos estão descobrindo, por causa do jogo, que um pouco de caminhada e ar livre pode ser bom para a vida!

Não sei dizer se o jogo da Nintendo vai fazer com que mais gente passe a olhar a caminhada de um jeito diferente. Acredito que, depois que empolgação acabar e o jogo for para a prateleira de coisas do passado, muita gente vai voltar para uma vida mais sedentária, muitas vezes restrita ao computador do quarto. Mas, também acredito em experiências transformadoras. Algumas pessoas podem, sim, levar as caminhadas para a vida mesmo sem o estímulo do Pikachu. Posso até estar sendo um pouco otimista demais, mas muitas vezes a gente não faz algo — como caminhar mais, por exemplo — por puro comodismo. E um joguinho estimulante pode ser o pontapé inicial para mudar isso. Ele pode mostrar que caminhadas são viáveis (no jogo, os jogadores ganham alguns ovos que viram pokémons depois de chocados. Para chocá-los, é preciso andar certas distâncias, que podem ser de até 10 km) e que a cidade tem mais coisas a oferecer do que podemos imaginar. No mundo todo, as pessoas saem em expedições em busca dos pokémons e, não raro, os bichinhos estão “escondidos” em locais como muros grafitados ou monumentos, que se tornam o foco da atenção de quem quer capturar o danadinho.

Sem o estímulo da caça aos pokémons, o que poderia fazer as pessoas se interessarem mais por caminhar pela cidade? A cidade propriamente dita. O filósofo Frederic Gros, autor do livro “Andar, uma filosofia”, disse que para algumas pessoas a caminhada é o exato oposto do significado de prazer porque nós tendemos a comparar prazer com excitação. E para que haja excitação é preciso uma novidade, coisa que a cidade não oferece o tempo todo. Eu discordo. Acho que a cidade oferece novos estímulos periodicamente. Mas, certamente, não com a mesma frequência de um jogo pensado para isso. O ritmo das mudanças para quem anda a pé (pela mesma região) é mais lento. Elas surgem na paisagem de acordo com a estação do ano e o tempo das plantas (veja os ipês, por exemplo, que florescem cada cor em um momento diferente); com as demolições, reformas e construções; com a inauguração de novos estabelecimentos comerciais; com os eventos e ocupação dos espaços. Não são coisas que acontecem freneticamente, como pokémons pulando na tela do seu celular. Porém, podem ser estimulantes e garantir uma dose de excitação no seu dia. O ser humano gosta de novidade. E a cidade está cheia delas que, não raro, passam despercebidas aos nossos olhos. Curiosamente, muitas dessas novidades são coisas antigas, que o tempo deixou lá e, hoje, parecem tão exóticas e diferentes. E como é delicioso ver vestígios da história no caminho.

Por mais que as cidades tenham se transformado em lugares opressivos aos pedestres por causa do estímulo ao uso do carro, há, ainda, muito estímulo para quem anda a pé escondido por aí. É só procurá-los como quem caça pokémon. Acho que é até mais fácil. É uma questão de exercitar o olhar, de caminhar prestando atenção no caminho (não no celular), de estabelecer um ritmo mais lento e apreciar aquilo que está a sua volta. Certamente você vai acumular mais pontos com a sua cidade e o seu bairro.

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