O bairro (de novo)
Andar a pé Blog

O bairro (de novo)

A lavanderia que eu usava eventualmente mudou de lugar. Ela ficava no mesmo quarteirão da minha casa, a poucos passos de distância do meu portão. Não precisava nem mesmo atravessar a rua para chegar lá. Saía com o edredom na mão quando precisava levá-lo para lavar. Para o meu azar, a Érica, a proprietária, resolveu mudar para um imóvel maior, com estacionamento e onde, em breve, ela também vai morar.

Érica está querendo mais qualidade de vida. Está cansada de gastar um tempão no trânsito todos os dias. E está certa em buscar isso, mesmo que tenha de abrir mão de algumas coisas. Eu também fiz essa escolha. E hoje, posso dizer, tenho uma qualidade de vida invejável para quem mora em São Paulo (mas isso é assunto para outro post).

A saída da lavanderia da vizinhança me fez pensar sobre as comodidades da minha vida. Tenho tudo muito perto de casa (quer dizer, agora, não mais lavanderia). Quando digo muito perto me refiro a lugares onde se pode chegar tranquilamente a pé, gastando não mais do que 15 minutos, o que é um tempo de caminhada absolutamente tolerável para uma pessoa saudável. Pensando rapidamente, fiz uma listinha: padaria, mercado, pet shop, açougue, costureira, academia, shopping, metrô, loja de bolos, sorveteria, igreja, bares, pizzaria, restaurante por quilo, laboratório para fazer exames, salão de beleza etc. E estou falando de comércio de qualidade, não de um mercadinho chinfrim que não tem nada…

Sim, eu me sinto privilegiada por viver dessa forma. E tendo, ainda, a comodidade de trabalhar muito perto de casa, o que é raro em São Paulo. Por isso eu gosto de prestigiar esse comércio local. Não é discurso marqueteiro. Claro que pesquiso preço. Não sou louca de pagar um valor exorbitante por algo só porque está perto. Mas prefiro comprar a ração dos gatos no pet shop da esquina, onde converso com a Letícia, a vendedora, que ainda reserva a ração para mim pelo Facebook.

Durante quatro anos, morei na Penha. Nesse período, minha vida se resumia a atravessar a rua para pegar o metrô ou andar 10 minutos para chegar ao shopping, onde fica o supermercado. Dificilmente eu consumia no bairro. Nem mesmo posso dizer que conheço bem a Penha. Não conheço porque nunca vivi o bairro. Um pouco por culpa de o pedaço onde eu morava não ter muitos serviços. Para se ter uma ideia, a banca na frente do prédio vendia leite condensado, fazendo as vezes de mercadinho para aquele brigadeiro de emergência. O metrô do outro lado da rua me servia de transporte para ir à lavanderia do Shopping Tatuapé e ao mercado do Shopping Itaquera quando estava com preguiça de subir as ladeiras da Penha. Ladeiras, aliás, tornam-se um pouco inconvenientes quando você precisa usá-las todo dia. Ter de encará-las pode fazer a pessoa pensar duas vezes antes de sair a pé. Mas eu também tenho culpa por essa não vivência do bairro, já que nunca saí para explorá-lo. Me rendi a algumas conveniências que pareciam mais práticas, embora ficassem bem mais longe da minha casa.

Não acho, e não acredito, que as pessoas vão incluir caminhadas em seu dia a dia simplesmente porque pensam em uma cidade melhor e mais saudável. Nessa hora, pensamos primeiro no nosso conforto e, muitas vezes, o carro é mais confortável. Acho que o hábito da caminhada pode ser construído ao longo da vida, principalmente se os pais estimularem as crianças a caminhar mais, em vez de fazer tudo de carro. E isso certamente vai refletir nas escolhas da vida adulta, como uma simples ida à padaria.

O planejamento urbano também tem o seu papel, na medida que uma boa infraestrutura e serviços de qualidade funcionam como um estímulo para utilizar aquilo que está mais próximo da nossa casa. Os benefícios são inúmeros para a cidade — como mais segurança para usar as ruas -, mas também para a nossa vida pessoal. É incrível como essa vivência do bairro traz um tanto de afeto para o nosso cotidiano, como uma mensagem no Facebook da Letícia, a vendedora do Pet Shop, me avisando que esqueci o portão de casa aberto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *