Sobre lágrimas e vaias
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Sobre lágrimas e vaias

Divulgação: IOC Media

Eu fiquei tocada com a imagem do francês Renaud Lavillenie chorando no pódio enquanto tocava o Hino Nacional Brasileiro na cerimônia de premiação do salto com vara, que rendeu o ouro para o brasileiro Thiago Braz. Lavillenie foi infeliz nas declarações que deu após a derrota, fazendo uma analogia das vaias que ouviu durante a prova com as vaias recebidas pelo velocista americano, negro, Jesse Owens em Berlim, em 1936. Ele mesmo tentou se retratar depois, dizendo que exagerou e tal.

O próprio francês disse, em uma declaração em sua página no Facebook, que estava se sentindo humilhado no pódio. Não posso cravar, mas acho que essa humilhação tem mais a ver com suas declarações — e a repercussão delas — e com o fato de não ter cumprimentado Thiago pela vitória, do que com a perda do ouro para o brasileiro. Lavillenie deve ser altamente competitivo e, talvez, não aceite perder. Mas certamente sabe que isso faz parte da vida. Afinal, essa é uma lição que o esporte sempre ensina.

Conversando sobre isso durante o almoço com uma amiga, um senhor sentado ao meu lado interferiu na conversa para dizer que ele (o francês) se achava demais, que faltou humildade. Pode ser. Humildade é algo que faz bem. Mas também é preciso saber o seu valor. E, certamente, Lavillenie sabe que é bom, que tem méritos e recordes e poderia ter ganho aquela medalha. Mas falhou, como todo mundo falha um dia. As críticas dele às vaias da torcida que estava presente no estádio, que o teriam desconcentrado, não justificam a perda do ouro. Talvez, em outros países, as pessoas não tenham esse comportamento. Brasileiro é mais passional, sempre. E não podemos esquecer que no nosso esporte mais popular, o futebol, a torcida costuma dar show de horror. Não que bons exemplos não existam. Eles existem, claro. Mas os maus exemplos são muito significativos para não quererem dizer nada. É só lembrar do grito de “bicha” a cada cobrança de tiro de meta dos goleiros, seja no brasileirão ou nas Olimpíadas.

Ouvi gente dizer que esse é nosso jeito de torcer e que é preciso se adaptar, já que os jogos estão sendo aqui, na nossa terra. Pode ser. Somos calorosos, passionais e, 99,9% das vezes, torcemos pelo nosso País (é sempre bom lembrar dos torcedores se manifestando contra a seleção brasileira em um dos jogos da Olimpíada). É até normal querer usar o fato de sermos a maioria da torcida para atrapalhar o adversário. Poderíamos ser mais educados e respeitosos e fazer silêncio? Sim. Deveríamos. Afinal, que vença o melhor. Mas será que essa torcida tão passional e, às vezes, mal educada, não é reflexo do que somos como sociedade?

O Brasil é um País lindo, caloroso e que soube fazer uma abertura incrível dos Jogos Olímpicos (mas, tenho que dizer, tiraria o Marcelo D2 e a Anitta — é gosto pessoal, gente!). Mas nos falta, ainda, muito em termos de educação. Não que o resto do mundo seja absolutamente melhor que a gente. Nem tenho conhecimento de causa para dizer isso. Mas o nosso cotidiano, aquele que a gente não mostra no Facebook, esconde coisas que não são nada bonitas e, que lá no final, podem refletir no comportamento brasileiro em uma Olimpíada. Refiro-me a coisas “banais” como reservar a vaga em frente à nossa loja, por exemplo, e ainda se achar no direito de brigar com quem quer estacionar ali; fazer um degrau de 30 cm em uma calçada só para facilitar a entrada do nosso carro na garagem, dificultando a vida do pedestre e, principalmente, dos cadeirantes que querem circular pela cidade; jogar aquele papel de bala ou garrafa de plástico na rua; fechar o cruzamento mesmo vendo que a fila de carros à frente não vai andar tão rápido; parar em fila dupla na porta da escola só para pegar o nosso filho e por aí vai. Sempre digo que o cotidiano revela muito sobre do que somos capazes, mas nem sempre prestamos atenção. Afinal, são pequenas coisas do dia a dia. Mas no momento em que isso vira uma vaia descomunal dentro de um estádio lotado sem que haja motivo pra isso, o pequeno ganha outra dimensão.

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