Hortinha
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A delicadeza de uma horta no meio da cidade

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Quase todos os dias na hora do almoço eu passo em frente a uma casa que tem uma hortinha linda. Sempre fico namorando o que tem ali. Chuchu, uva, verduras, tomate, cenouras, mamão, abacaxi, cebolinhas gigantes etc. Vez ou outra, as plantas “invadem” até a calçada, em um pequenino canteiro que há por ali

Tomateiro na calçada: extensão da hortinha do Seu Antonio.

Sempre admirava a hortinha, mas nunca tinha ninguém ali cuidando dela na hora em que passo. Até que um dia ele estava lá: o Seu Antônio, o criador e cuidador da horta. Não resisti e parei para dizer que sou apaixonada por aquela horta, que sempre passo e fico admirando pelo portão.

Gentilmente ele me deixou chegar bem pertinho para fazer umas fotos. Estava tudo recente, começando a crescer. Conversamos um pouco e ele me contou que sempre gostou de mexer com a terra. Mora na casa vizinha e cedeu aquela casa da hortinha para a filha morar com o marido. Mas impôs que a horta continue lá para ele cuidar. O que produz ali, seu Antonio consome em casa e distribui entre amigos e parentes. É um passatempo, mas, acima de tudo, um prazer. Ele gosta de cuidar daquilo, de ver as plantas crescerem. E ainda é criativo. Naquele dia, uma série de cabides — desses de lavanderia — estavam no muro: gambiarra para o chuchu subir pelas paredes.

Gambiarra com cabides para dar suporte ao chuchu.
Gambiarra com cabides para dar suporte ao chuchu

A hortinha é do Seu Antonio, não da cidade. Não se pode inclui-la nessa nova onda de horta urbana, que tem ocupado espaços públicos de uma forma inteligente e útil. Mas, de certa forma, a hortinha do Seu Antonio faz um bem danado para a cidade. Ele fica em uma propriedade particular, atrás de um portão, mas ainda assim ajuda a embelezar uma rua já tão agradável. Também ajuda a aproximar as pessoas. Assim como eu parei para conversar com ele sobre a horta, outras pessoas fizeram o mesmo. E foi ele mesmo que me contou.

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É até curioso pensar que em uma cidade como São Paulo — cheia de hostilidades — alguém abra o portão da sua casa para uma estranha entrar, ver e fotografar sua horta. E ainda ficar fazendo um monte de perguntas. Provavelmente, eu não teria feito o mesmo se fosse a minha casa. Uma horta, um jardim, um gramado que seja, humaniza um pouco mais o lugar. É mais bonito e menos hostil do que um muro ou um simples cimentado. Talvez seja isso que cause nas pessoas a vontade de chegar mais perto. Talvez seja por gostar tanto disso que o seu Antonio não tenha se preocupado em me deixar entrar e ver a hortinha sem nem me conhecer.

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