Ruazinhas
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Os encantos e vantagens de se caminhar por ruas estreitas e encantadoras

Rua João Migliari

Um dos grandes prazeres que encontro nas caminhadas é me embrenhar por ruazinhas — vilas, ruas estreitas, vielas. Parece que, nessas ruas, sou transportada para outro tempo e espaço. Não sei dizer se é o silêncio, a proximidade, o fato de o movimento de carros ser menor, mas as ruazinhas se mostram, quase sempre, uma boa alternativa. E é curioso como elas parecem surgir do nada, às vezes em lugares por onde você já passou diversas vezes e nunca havia prestado atenção.

Não vou negar que em alguns momentos fico com medo de passar por essas ruazinhas, justamente por causa do pouco movimento. A gente sabe que mais pessoas trazem uma maior sensação de segurança. E, com a expansão imobiliária nas cidades, muitas desses pequenas ruas perderam suas casas. Sem condições de abraçar o fluxo intenso de um prédio, as pequenas ruas facilmente ganham um grande muro que cerca os fundos dos novos empreendimentos construídos nos terrenos das antigas casas. Pode observar como isso é comum e mata o espaço. A rua fica morta, perde movimento e deixa de ser uma alternativa para os pedestres por causa da insegurança.

Mas ainda há muitas ruazinhas que são cheias de vida, com casas, gente morando, cachorro na garagem e gato na janela. Muitas ganharam portões fechados, que causam a mesma sensação de insegurança dos muros dos prédios. Ainda assim, é curioso observar, quando se caminha por essas ruas, como os moradores te olham e observam porque, afinal, naquele pequeno trecho você é um estranho. É como se você fosse um turista em uma cidade pequena, daquelas onde todas as pessoas se conhecem.

Essas ruas foram abertas na década de 1970 e formavam o Conjunto Acrópole, primeiro grande empreendimento imobiliário do Tatuapé.
Essas ruas foram abertas na década de 1970 e formavam o Conjunto Acrópole, primeiro grande empreendimento imobiliário do Tatuapé

Além de deixar os caminhantes inveterados como eu mais excitados, essas pequenas ruas abrem o leque de caminhos dos pedestres. Deixam as quadras mais curtas e criam intersecções que são bem interessantes do ponto de vista urbanístico. Quanto mais interseções houver na cidade, melhor ela é para o pedestre, que ganha mais opções de escolha. Veneza, por exemplo, onde o pedestre é rei (até porque carros não circulam por lá), tem, em média, 1.500 interseções por m². Brasília, a cidade pensada para ser vista do alto, tem apenas 100. Aliás, alguém já caminhou por Brasília? É muito estranho. Parece que você está sempre no mesmo lugar, e que esse lugar é uma larga e infinita rodovia…

Quando a gente anda a pé, a velocidade é baixa e a nossa capacidade de perceber detalhes aumenta. Por isso é gostoso caminhar por ruas estreitas, onde existe proximidade, e lugares cheio de detalhes para serem observados . “Em ruas estreitas e espaços pequenos, podemos ver os prédios, os detalhes e as pessoas ao redor em curtas distâncias. Há muito que assimilar, há muitos prédios e atividades que experimentamos com grande intensidade. Percebemos a cena como calorosa, pessoal e convidativa”, explica Jan Gehl no livro Cidade para Pessoas.

Difícil resistir e não passar por essa rua com uma charmosa capela no centro.
Difícil resistir e não passar por essa rua com uma charmosa capela no centro

Por mais que São Paulo seja uma cidade onde as pessoas têm medo da rua -com certa razão — é possível encontrar pelos caminhos lugares com essas características mais convidativas. E é muito difícil resistir a observá-los, senti-los e refletir sobre como são importantes para a vida e para a convivência urbana. Pense nisso!

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