Cozinhar como um caminho para relaxar e ter coragem de ter ousadia
Blog

Cozinhar como um caminho para relaxar e ter coragem de ter ousadia

Sempre que quero relaxar, penso em ler um livro. Deitar no sofá ou na cama e ficar horas lendo no absoluto silêncio. De fato, em muitos momentos, isso é uma atividade relaxante. Mas não sempre. Há momentos em que simplesmente quero fazer algo que me tire da rotina, do mundo ao qual estou acostumada que é, basicamente, ler, escrever e caminhar.

Um dia, quando estava com a cabeça cheia, peguei uma blusa de lã no varal e, com uma pequena tesoura, comecei a cortar aquelas bolinhas que se formam nos tecidos sintéticos. Devo ter ficado uma hora nessa tarefa. A TV ligada em algum programa que não me lembro e eu cortando bolinhas rente à blusa de lã para poder usá-la em mais uma estação. Aquele serviço repetitivo me fez parar e relaxar. Naquele momento, fiquei sem pensar em nada, como se estivesse ouvindo um mantra e meditando. Não consigo encontrar facilmente atividades que me deixem nesse estado. Sou bem ansiosa e quero encontrar sentido em tudo que faço, o que nem sempre acontece, claro.

E não sou muito boa com os serviços manuais. Bordar, costurar, tricotar ou fazer crochê não é comigo. Já tentei algumas vezes, mas sempre esbarro na falta de paciência, nas mãos desajeitadas que mal conseguem enfiar a linha na agulha. Talvez seja uma questão de persistência. Mas a minha falta de jeito me faz ficar irritada e nervosa e o resultado é totalmente oposto ao esperado.

Daí, um dia, fui pra cozinha entediada. Precisava fazer a alguma coisa e cozinhar parecia a única opção. Tenho uma sensação de superpoder quando consigo transformar ingredientes em um prato. Não é um território totalmente desconhecido pra mim, mas estou bem longe de conhecer técnicas aprofundadas e ser uma exímia cozinheira. Um hospital talvez adorasse meus pratos sem sal.

Embora a cozinha também exija paciência e um pouco de destreza, sinto-me um pouco mais confortável lá do que em meio às linhas e agulhas. Foi picando legumes, cebola e alho com calma, sem pensar que a comida precisava ficar pronta rapidamente, que percebi que cozinhar podia ser um escape. Isso se eu conseguisse tirar dessa tarefa a obrigação de fazer um prato Masterchef e entendesse, de uma vez por todas, que errar faz parte do processo.

Preciso dizer que já chorei diante de um prato que deu errado. Não gosto de desagradar quem vai comer a minha comida, então prefiro cozinhar só pra mim. Mas também gosto de dividir a mesa com o marido, a família e os amigos. Acho que ainda estou no processo de aceitar que errar, na cozinha, é normal, necessário e que é preciso repetir muitas vezes o que se faz para aprimorar a técnica e encontrar o tempero ideal.

Apesar de ainda ser refém das receitas, um guia que — teoricamente — garante um resultado final perfeito, tenho percebido que o exercício de cozinhar com mais frequência me dá um pouco mais de coragem para a ousadia. São coisas mínimas — como aumentar um pouco a pitada de pimenta — que fazem com que eu me sinta grande e corajosa, enquanto paro de pensar na vida ordinária e nos problemas que estão fora da cozinha. Afinal, relaxar é isso: esquecer um pouco daquilo que nos incomoda.

A cozinha é um bom campo para experimentos. Para quem, como eu, carece de um pouco de ousadia na vida e tem medo de se jogar, pode ser um bom caminho, um começo, um jeito de aprender que é preciso inventar, experimentar e que, se não der certo, tudo bem. Sempre tem uma pizza pra salvar o dia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *