Vou correndo, volto caminhando
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Vou correndo, volto caminhando

Correr é uma delícia e me faz ser inundada por serotonina. Mas o melhor é voltar caminhando e usar todo o bem-estar que essa serotonina me traz para aproveitar ainda mais a cidade.

Em dezembro de 2016 comecei a correr. Fiz como manda o figurino: comecei bem devagar, correndo poucos minutos, somente o quanto meu corpo e meu fôlego aguentavam. Não sei dizer exatamente quando percebi que era possível correr da minha casa até o parque sem parar e sem ficar esgotada. Mas, hoje, faço isso quase todos os dias.

Como já tenho o hábito de caminhar há muitos anos, é quase inevitável fazer comparações entre a forma como se consegue fruir a cidade correndo e caminhando. E posso dizer: é bem diferente. O escritor português José Luis Peixoto escreveu em um artigo no qual indica pistas de corrida pelo mundo, que “há poucas formas mais envolventes de se descobrir uma cidade”. Bem, eu discordo e acho que caminhar é bem mais envolvente e interessante.

A corrida exige uma concentração e uma disposição mental que a caminhada não pede. Andando, fico com o pensamento mais livre e posso observar o caminho mais plenamente. Quando saio de casa para correr, o objetivo é chegar ao parque correndo. Então, não paro para observar uma casa, uma árvore, uma vitrine ou qualquer coisa que me chame a atenção. Quando percebo algo interessante, faço uma anotação mental para voltar depois, andando, e olhar com calma. O foco está todo na corrida e no destino final. Já caminhando, me concentro mais no caminho do que no destino. Caminhar tem a ver com “ter tempo”, e não com “fazer o tempo render mais”. Quando saio andando — seja lá por qual motivo for — a fruição está automaticamente no meu caminho. É quando me perco em observações sem fim. Paro para ver as casas, as plantas, os desenhos nos muros, uma loja nova que abriu. Paro na banca de revistas, na padaria, na loja que vende água de coco. Paro para fazer fotos do que acho bonito, exótico, polêmico ou interessante.

Se você quiser fruir e se conectar com a cidade, experimente ir correndo e voltar andando. Inundada por aquela sensação de bem-estar que a serotonina liberada em uma corrida proporciona, parece que os olhos ficam mais abertos às belezas da cidade.

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