Livros de Ajuda
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Livros de Ajuda

Em 2017, praticamente não li nada de literatura, o que é uma merda. Mas é, também, um pouco sintomático do que foi o meu ano. Reflexões sobre a vida e meditação foram os temas que mais permearam as minhas leituras, tanto de livros como de texto aleatórios. Teve um espaço para coisas sobre jornalismo também. Mas, no fundo, sempre houve uma procura por ajuda para encontrar novos caminhos, já que 2017 foi o ano em que as coisas ruíram.

Esses livros me ajudaram a desenvolver recursos mentais e emocionais para enfrentar o turbilhão que se abateu. Morte, demissão, indecisão, medo, velhice, tudo isso fez parte (na verdade, ainda está fazendo parte) dos meus últimos meses. E é muito mais difícil enfrentar os momentos turbulentos se você não tem os tais recursos mentais e emocionais. Há momentos na vida em que a única alternativa é ir em frente, não importa o quão duro seja isso. Por isso, chamo essas leituras de Livros de Ajuda.

Como tenho estado interessada em meditação, um dos livros que gostei bastante foi “10% mais feliz”, do jornalista Dan Harris. Depois de ter uma crise de pânico no ar, ao vivo, na rede ABC, Dan foi em busca de tratamento e encontrou remédio na meditação. Daí ele foi investigar um pouco esse meio, conversar com meditadores, gurus, especialistas e, claro, começou a praticar com regularidade. Gostei do relato porque é real, palpável, tira a meditação de um ambiente etéreo e a coloca na vida real de uma pessoa que trabalha em um ambiente competitivo, tem horários nem sempre convencionais, vive, enfim, uma vida comum e não monástica. Dan chega à conclusão de que meditando ele se tornou 10% mais feliz. Não teve seus problemas todos resolvidos magicamente, não chegou ao Nirvana, mas encontrou um caminho mais tranquilo na vida e pode se observar, acalmar a mente e os pensamentos, agir diante dos problemas, em vez de reagir. “Descobri que a meditação não era uma técnica de passatempo hippie, mas um exercício cerebral rigoroso: uma tentativa permanente de redirecionar o trem descarrilado da mente”.

“O Caminho da sabedoria” é a transcrição de uma conversa entre o monge Matthieu Ricard, o filósofo Alexandre Jollien e o psiquiatra Cristophe André. Ainda não terminei essa leitura porque é um livro denso, que exige muita atenção e pede pausas pra refletir. Os três amigos ficaram alguns dias em uma casa na montanha, conversando sobre a vida. E as reflexões que fizeram deram origem a esse livro. É muito interessante ver os pontos de vista de cada um sobre temas que nos são tão caros, como aspirações, emoções, ego, sofrimento etc. Cada um tem uma história de vida muito peculiar e isso fica nítido na forma como veem  e encaram a vida. É também interessante notar a forma como eles enfrentaram os desafios que encontraram. São visões complementares, questionadoras. É um livro real, uma auto-ajuda bem filosófica. Sem contar que foi uma das reflexões de Alexandre que me fez entender um pouco mais porque não consigo me ligar em nenhuma religião. “…percebi que a noção de graça, isto é, de dom, ajuda divina recebida graciosamente, é essencial na fé cristã. Foi isso que me desviou um pouco dela quando eu não estava bem. Abandonar-se, confiar enquanto tudo desmorona ao seu redor, exige enorme ousadia, da qual eu não era capaz no meio da tormenta. Ao conversar com Matthieu, entendi aos poucos que o budismo oferece um caminho, uma via para alcançar o Despertar, para escalar o monte Everest da felicidade. E aquele que quer seguir os passos de Buda é incentivado a pegar o seu bastão de peregrino, transformar a mente e praticar o caminho óctuplo para começar essa ascensão. Em resumo, como diz Matthieu, o monte Everest está lá, e só nos resta escalá-lo, mesmo que o caminho seja extremamente árduo”.

“Treze Meses dentro na TV” não tem nada a ver com meditação, mas foi um livro de grande ajuda nesse momento de mudança profissional. Jornalista experiente, Adriano Silva conta como foram os 13 meses que ele passou na redação do Fantástico, da TV Globo. A experiência dele na maior empresa de comunicação do País me fez pensar nos anos passados nas pequenas redações do interior ou da revista do bairro. Eu mesma sempre as julguei inferiores, o que acho até normal nesse nosso mundo de valorizar o que tem relevância nacional. Mas, ao ler o livro do Adriano, percebi que muitas coisas que aconteciam na produção do Fantástico, uma das maiores audiências da Globo, aconteciam também na revista do bairro. Quando ele diz “Talvez fosse um cacoete dos líderes de mercado não colocar suas fórmulas, formatos e paradigmas na revisão. E, ao contrário, proteger tudo isso dentro de uma redoma, a espera de que a realidade ao redor voltasse a se amoldar a seus jeitos tradicionais de fazer e pensar”, parecia que eu estava vivendo exatamente o que vivi na redação até vê-la se acabar. O livro é uma grande inspiração pra quem trabalha em uma empresa, mas sente que não faz parte daquilo, daquela equipe. Foi isso que aconteceu com ele e essa história que ele conta. O sonho de estar na Globo, no Fantástico, passou longe das expectativas. Lá dentro, Adriano se sentia um tanto quanto irrelevante. A estrutura montada não mudava por causa dele, que entrou com um bom cargo e saiu com frustrações e muitas lições. “A irrelevância, a princípio, pode gerar uma sensação confortável. Não ser cobrado produz uma falsa leveza. O imobilismo numa determinada função, o exílio dentro da própria empresa podem soar confortáveis em algum momento. Só quem não tem responsabilidades também não tem peso. E quem não tem peso não ocupa espaço. E quem não ocupa espaço não tem lugar garantido. Se você não tem uma meta a cumprir, você não faz falta”.

Logo que saí do emprego, comprei o livro “Como escrever bem”, de Willian Zinsser. Estava (ainda estou) querendo me livrar um pouco do texto duro que o jornalismo me impôs até agora. Quero mais leveza, sem abrir mão da informação, claro. Mas, ao ler, percebi que o livro de Zinsser falava mais para outro lado meu: aquele que tem medo de se expor, de escrever de um jeito próprio, de acreditar no que está escrevendo. Ele bate muito nessa tecla de que, primeiro, a gente tem que escrever pra gente e, se estiver bom, sempre vai ter quem leia. Isso não significa não pensar no leitor e escrever de um jeito que ninguém, além do próprio autor, entenda. Mas, sim, escrever com confiança, da forma como acreditamos que aquilo deve ser dito para as pessoas. “Não tente adivinhar que tipo de coisa os editores querem publicar nem se paute pelo que você acredita que o País esteja a fim de ler. Os editores e os leitores não sabem o que querem ler até o momento em que o leem. Além disso, estão sempre procurando coisas novas”. Um puta estímulo para jornalistas em tempos de crise.

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