A agenda de telefones
Blog

A agenda de telefones

Agenda de telefones sempre foi uma ferramenta de trabalho dos jornalistas. Pense que em um período pré-internet, sem redes sociais, sem celular e sem WhatsApp, a forma mais rápida de contato era discar o número da pessoa e tentar falar com ela. Então, jornalistas sempre mantiveram  suas agendas de telefone gordas, com cantos de páginas amareladas, mas onde se podia encontrar o contato de políticos, celebridades, anônimos, especialistas, etc e tal.

Quando o mundo acelerou e a comunicação foi atropelada – e facilitada – pelo e-mail, depois, pelo celular e, mais recentemente, pelo WhatsApp, a agenda de telefone em papel caiu em desuso. Contatar as pessoas ficou mais fácil e acessível – principalmente com as redes sociais – e a agenda do celular virou a agenda da vida, assim como o e-mail, que você pode arquivar e ter o contato lá. O problema é quando a caixa fica com milhares de mensagens e você pena pra encontrar o que precisa.

No meu primeiro trabalho em redação, eu tinha uma agenda de papel bem vagabunda, onde ia anotando os contatos. Depois, comprei um caderno e transformei em agenda (eu recortei as margens para fazer o índice alfabético. Só não me perguntem porquê) . Eu trabalhava no jornal diário de uma cidade do interior e anotava todos os contatos que fazia. Até porque, lá, era raro ter uma assessoria de imprensa para intermediar a conversa. A gente falava direto com as fontes, inclusive secretários, vereadores e até o prefeito. Na redação, as agendas tinham seu valor.

Quando saí, não quis me despedir de ninguém porque sou muito chorona e emotiva. Foi meu primeiro trabalho em redação, aprendi muita coisa, fiz amigos e algumas merdas, me expus mais do que eu gostaria e saí porque eu quis. Apenas os mais próximos sabiam disso. No primeiro dia em que não fui trabalhar, uma estagiária ligou na minha casa pra perguntar se eu não ia deixar minha agenda lá! E olha que eu estava longe de ter a agenda mais foda da cidade.

No outro trabalho que tive, no badalado bairro de Alphaville, na grande São Paulo, comprei uma agenda tipo fichário, com capa de couro – dessas para a qual você pode comprar um refil das páginas e usar até o fim da vida -, e passei a anotar todos os contatos lá. Apesar do e-mail, eu tinha o hábito de registrar os telefones das pessoas na minha agenda como um jeito de tê-los comigo independentemente do que acontecesse na minha carreira. Esse emprego durou pouco mais de dois anos e, claro, rendeu algumas páginas preenchidas na agenda de capa preta.

Já no outro trabalho, uma revista de bairro em São Paulo onde fiquei por quase 8 anos, aconteceu um desapego da agenda: um pouco por displicência, outro tanto por influência das tecnologias. Criei o hábito de guardar os contatos no e-mail. Quando precisava, fazia uma busca na própria caixa de entrada. Muitas vezes isso funcionava, mas quando se passava muito tempo da última vez em que havia falado com aquela pessoa, nem sempre eu me lembrava do nome ou da empresa. Aí, na bagunça do meu Outlook e, posteriormente, Thunderbird (só nessa transição de gerenciador de e-mails muitos contatos se foram para todo o sempre), ficava difícil encontrar o que precisava. Não que na agenda não haja dificuldade. Mas, honestamente, acho mais fácil procurar página por página do que ficar digitando nomes aleatoriamente em uma caixa de buscas. E, na agenda, eu sempre coloco um lembrete de quem é a pessoa e em que situação foi feito o contato, o que ajuda na busca manual.

Voltando ao emprego de quase 8 anos, ficar tanto tempo na mesma empresa também me deu certa segurança em abdicar da agenda. O e-mail estava sempre ali e era o mesmo há anos; os papeizinhos com anotações eu jogava na gaveta e bastava abri-la para encontrar. Quando vi, tinha caído na armadilha da comodidade e no erro de não pensar que, um dia, poderia precisar daquele material fora daquela redação. Na hora em que saí da empresa e deixei o e-mail e a gaveta para trás (os papeizinhos vieram comigo), percebi que esse ativo dos contatos estava uma zona de guerra. Ainda consegui anotar muitos telefones que pesquei da minha bagunça na boa e velha agenda de capa preta, mas certamente muita coisa ficou pra trás.

Hoje, na vida de freela e, possivelmente, futura empreendedora na área de comunicação, não deixo escapar um único contato da minha agenda de capa reta. É conseguir o telefone ou e-mail e anotar para todo o sempre. Ou até que um incêndio nos separe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *