Caetano Veloso e Roberto Carlos
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Caetano Veloso e Roberto Carlos

Esse texto foi produzido a pedido do Portal IG, em 2008, quando Roberto Carlos e Caetano Veloso fizeram um show em homenagem aos 50 anos da Bossa Nova e a Tom Jobim

Como o ritmo de João Gilberto influenciou os criadores do Tropicalismo e da Jovem Guarda

Maisa Infante

Desde que o show de Caetano Veloso e Roberto Carlos em homenagem a Tom Jobim foi anunciado, muita gente se pergunta por que um artista da Jovem Guarda e um da Tropicália foram os escolhidos para homenagear a Bossa Nova. Primeiro, reduzir o trabalho de Caetano e Roberto apenas à Jovem Guarda e à Tropicália é injusto, afinal os dois construíram uma carreira que vai muito além desses movimentos. Tanto que estão na ativa, e com sucesso, até hoje. O que talvez muitas pessoas não saibam é que Caetano e Roberto Carlos têm uma relação muito próxima com a Bossa Nova.

Caetano é, declaradamente, um admirador de João Gilberto. Na verdade, foi por causa da música de João Gilberto que Caetano resolveu ser músico. E ao longo de sua carreira ele nunca ficou um grande período longe da Bossa Nova. Além de ter feito shows ao lado de João Gilberto, inclusive durante o tempo do exílio, Caetano gravou uma das obras fundamentais da discografia brasileira, o disco “Brasil”, ao lado de João Gilberto e Gilberto Gil. Há pouco tempo, em 2000, dirigiu a produção do disco “João Voz e Violão”, o primeiro trabalho de inéditas de João Gilberto em estúdio em nove anos. “A Bossa Nova foi tão importante para Caetano que o levou a querer ser músico, cantor e violonista. Podemos dizer que foi até mesmo um ponto de partida para o tropicalismo”, avalia o jornalista Carlos Calado, autor do livro “Tropicália – A História de uma Revolução Musical”. “A Tropicália é o avesso da Bossa Nova. Quando tentaram fazer algo novo, acabaram usando tudo que a Bossa tinha renegado. A Bossa era mais suave, o Tropicalismo mais agressivo; o Tropicalismo abraçou o rock e o pop, a Bossa não. Isso não significa que Caetano não gosta da Bossa Nova. Pelo contrário. Mostra que foi uma influência essencial na formação musical dele”, completa.

No caso de Roberto Carlos, existe todo um misticismo sobre uma “rivalidade” entre ele e a Bossa Nova o que, na verdade, nunca existiu. “Em meados da década de 1960 houve certa competição entre a turma da Jovem Guarda e da Bossa Nova por causa da audiência dos programas de auditório que iam ao ar na televisão. Na verdade, havia um ranço da turma da Bossa Nova para com o pessoal da Jovem Guarda, que tinha mais fãs, movimentava mais a garotada, emplacava mais hits no rádio e vendia muito mais discos. Mas o pessoal da Jovem Guarda não se importava com isso e até se divertia com o incômodo que causava. Nara Leão era defensora da música de Roberto Carlos e companhia, Maria Bethânia também. A Elis Regina chegou a soltar farpas, mas na virada dos anos 70 gravou músicas de Roberto e Erasmo e chegou a fazer programa de TV em dupla com Roberto”, conta o pesquisador Marcelo Fróes, autor do livro “Jovem Guarda em Ritmo de Aventura” e responsável pelo projeto que reeditou, neste ano, 25 CDs da Jovem Guarda.

A verdade é que antes de se tornar o artista que conhecemos hoje, Roberto Carlos cantava em boates do Rio de Janeiro imitando João Gilberto. Segundo Paulo César de Araújo, autor da biografia não autorizada de Roberto (e retirada das livrarias depois de uma disputa judicial), o próprio João chegou a assisti-lo na boate Plaza Sul e gostou do que viu. “Em um depoimento para mim, o João Gilberto disse que quando assistiu ao Roberto cantando na boate logo viu musicalidade. Em momento algum ele fez oposição a Roberto Carlos. O grupo em torno do João é que não o aceitou”, explica. Paulo também lembra que Roberto foi o primeiro (depois de João Gilberto) a gravar um disco de Bossa Nova, antes da febre que o ritmo causou. O disco era um 78 rotações com duas músicas compostas por Carlos Imperial. “Ele foi o primeiro a revelar essa influência. E ele gravou no calor da hora. Só que o pessoal da Zona Sul não gostou e o viu como um intruso. Roberto acabou deixando de lado a Bossa Nova e enveredando por outros caminhos”. Para Paulo César, é fácil perceber a influência da Bossa no trabalho de Roberto. “Ele é um cantor moderno que, assim como João Gilberto, canta de uma forma contida, sem vibrato”.

Nos shows que o público de São Paulo e Rio de Janeiro assistirão, estarão em cima do palco dois discípulos da Bossa Nova que enveredaram por outros caminhos, encabeçaram outros movimentos musicais, mas nunca negaram que tudo começou com o baquinho e o violão de João Gilberto.

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