Casa do Regente Feijó
Revista do Tatuapé

Casa do Regente Feijó

Matéria publicada na Revista do Tatuapé n°126 – Fevereiro/2017

Joia histórica
Imóvel conhecido como Casa do Regente Feijó fica escondido por entre prédios do Jardim Anália Franco e e é uma relíquia da história de São Paulo e do Brasil

Por Maisa Infante

Escondida entre os prédios da região do Jardim Anália Franco está uma construção que guarda muita história em cada uma de suas paredes. A Casa do Regente Feijó, como é conhecida, foi construída entre o fim do século 18 e começo do século 19 e resiste ao frenético crescimento de São Paulo. Desde a época em que os primeiros desbravadores chegaram a essa região, aquele pedaço de terra passou pelas mãos de muitas pessoas. As mais famosas, que elevaram o valor histórico do imóvel, foram o Padre Diogo Antônio Feijó e a educadora Anália Franco.

Tombado pelo Condephaat e pelo Compresp nas décadas de 1980 e 1990, o imóvel hoje é propriedade particular e fica fechado à visitação pública. Só é possível vê-lo do alto, ou das janelas dos prédios que estão no seu entorno. E, posso dizer, é uma bela vista! Mas nada se compara a caminhar por cada recanto daquela terra. A casa assobradada e com duas alas nas laterais se impõe em meio ao gramado bem cuidado. Andar por dentro do imóvel, observar as paredes descascadas, os resquícios de um altar, o fogão a lenha vermelho, as pinturas nas paredes e os longos anexos que em outros tempos abrigaram escravos e animais nos faz pensar em quanta história se deu naquelas terras.

O historiador Pedro Abarca, que pesquisa a história do Tatuapé há 23 anos, conta que aquela área, juntamente com as terras onde hoje estão o Ceret, o Shopping Anália Franco e a Unicsul pertenceram, por volta de 1560, a Franco Velho, um desbravador da época de Braz Cubas. “Naquela época, toda aquela região era conhecida como Capão Grande. Era uma gleba enorme, só de mato. Então, é difícil saber exatamente quem passou por ela. Mas há documentos do final do século 17 que apontam o filho de Francisco Velho como proprietário. Depois disso, o local começou a ser fragmentado, dividido em lotes menores, como é normal acontecer”.

O que se sabe é que o padre Diogo Antônio Feijó comprou a propriedade de 75 alqueires em 1829, a qual ele deu o nome de Sítio Paraíso. Segundo Pedro Abarca, a casa que resiste até hoje já estava lá. Dois anos após a compra, Feijó tornou-se Ministro da Justiça e, em 1835, foi nomeado Regente do Império. “Naquele período, ele teve uma vida política intensa que fazia com que ficasse mais tempo no Rio de Janeiro. Vinha para o sítio quando queria descansar. Como era padre, rezava missa no local e batizava algumas crianças”, conta Pedro.

A casa é considerada um remanescente da arquitetura bandeirista, porém passou por muitas alterações ao longo do tempo e perdeu diversas características, como o telhado de quatro águas típico dessas construções, que, ao que tudo indica, foi totalmente redesenhado quando a casa ganhou o segundo andar, algo que não era comum nas casas bandeiristas. Em todo o prédio, estão impressas diversas técnicas construtivas, resultado de obras e reparos feitos ao longo dos séculos. Um trabalho de restauro feito em em 2006 e deixou expostos pedaços da construção original, como paredes de taipa de pilão, estrutura de barro, camadas de tinta e pinturas decorativas. São marcas do passado que merecem ser preservadas.

Anália Franco
Em 1911, o casarão passa a ser cenário para uma nova história. É quando a propriedade é comprada, do Coronel Serafim Leme da Silva, pela Associação Feminina Beneficente e Instrutiva para ser a sede da “Colônia Regeneradora D. Romualdo Seixas”. A Associação foi fundada em 1901 pela educadora Anália Franco e manteve escolas, asilos, creches, orfanatos e outras instituições espalhadas por São Paulo e também por cidades do interior, que ofereciam educação e proteção a crianças carentes, mães desamparadas, independentemente do sexo, da cor ou da religião.

Quando adquiriu a Chácara Paraíso, Anália Franco viu a oportunidade de desenvolver um projeto que pudesse ajudar quem precisava e ainda se tornar autossuficiente, já que haveria espaço para cursos, oficinas e até uma escola agrícola. Cereais, frutas, verduras e legumes produzidos pelos alunos eram usados no abastecimento da própria colônia e também de outras instituições ligadas à Associação. Havia oficinas de costura, marcenaria e até uma gráfica. Para abrigar as pessoas e também os espaços das aulas, os anexos que outrora abrigaram animais e escravos foram readaptados. De um lado ficavam os dormitórios e, do outro, as salas de aula.

No início, a colônia abrigou “mulheres arrependidas” (mulheres casadas e que haviam sido abandonadas ou deixado o marido, moças solteiras que não se submetiam às determinações dos pais, sobretudo em relação a casamento, mães solteiras, viúvas e prostitutas) com o objetivo de profissionalizá-las. As atividades, porém, foram se diversificando e abriram espaço para outras faixas etárias. A pesquisadora Eliane de Christo Oliveira analisou diversos relatórios da instituição para sua dissertação de mestrado (Anália Franco e a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva: ideias e práticas educativas para a criança e para a mulher) e conta que, em 1912, a Colônia Regeneradora mantinha 68 asilados do sexo masculino e 99 do sexo feminino, totalizando 167, sendo que desse número 63 eram maiores de 14 anos e 104 menores. Eram 166 brasileiros e 1 estrangeiro. Chegou-se a ter cerca de 400 abrigados no local.
Quando a gripe espanhola atingiu São Paulo, os moradores da colônia não foram poupados. Em um determinado momento, havia 142 doentes, sendo que cinco morreram. A própria Anália Franco foi vítima da doença e faleceu em 1911.

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